Vichy – As primeiras experiências

Conhecendo a cidade

Acredito que depois de citar tantas vezes Vichy, eu preciso fornecer um pouco de explicação sobre o que existe lá e o porquê de eu estar indo para lá. Meu motivo não podia ser mais simples, aprimorar meu francês fazendo um curso recomendado pela École Centrale de Lille enquanto não começavam as minhas obrigações na cidade onde morarei pelos próximos dois anos.

Eu gosto muito de dizer que tive sorte por ter conseguido a Brafitec, pois para poder ter essa bolsa, é necessário um nível mínimo de B1 em francês e isso era algo que, no momento do exame de proficiência, eu tinha quase certeza que eu não tinha, porém, a sorte sorriu para mim e consegui o nível mínimo para a bolsa. Como não me sentia preparado para me aventurar pelos cantos da França apenas com o francês que eu possuía, decidi ficar duas semanas estudando em imersão total na cultura e na língua, o suficiente para ganhar confiança e um pouco mais de vocabulário.

Quando cheguei na estação da cidade minha “mère”, que é como chamávamos as pessoas que nos acolhiam durante nossa estadia, estava lá para me buscar e levar para casa. No caminho de 15 minutos a pé entre a estação e a casa ela me apresentou a cidade e me contou um pouco de sua história.

Localizada na região da Auvérnia-Ródano-Alpes e próxima de Clermont-Ferrand, já foi capital da França durante a segunda guerra. Com cerca de 60 000 habitantes, Vichy é conhecida por ser uma cidade termal que originou o nome de uma famosa marca de cosméticos chamada “Vichy Laboratoires”. Em suma, é uma cidade extremamente tranquila para se morar, sem tumulto de cidade de grande e possibilitando andar tranquilamente em qualquer parte da cidade.

Parque de Vichy

Finalizado meu tour pela cidade, voltei para minha casa para poder descansar na hora certa e tentar acabar com o famoso efeito de “Jet Lag”, já que no dia seguinte começavam as aulas.

O Cavilam

Sabendo que eu ainda estava sem 3g no momento, minha mère me acompanhou até a sede do Cavilam, local onde eu teria todas as minhas aulas pelas próximas duas semanas. Em todo o ano, o momento de mais movimentação na cidade é exatamente nas férias de verão, com o curso de francês. Chegamos a mais de 1000 estudantes em apenas uma semana, desses cerca de 70 sendo brasileiros. Ele é dividido em três áreas, o setor principal, onde fica a administração e algumas salas de aula, um secundário, que possui umas salas de aula mais amplas, utilizadas para os workshops da tarde e um outro, que possui salas de aulas menores e é bem mais apertado.

No primeiro dia de aula temos apenas uma primeira prova de cerca de uma hora de duração que define a turma que iremos começar. Essa prova tem uma parte de compreensão oral e outra de compreensão escrita, o resultado é divulgado pela manhã do dia seguinte. Após isso temos o resto do dia livre para visitar a cidade e resolver problemas como chip de celular e conta no banco, além de, ao final do dia, podermos fazer um passeio com guia turístico pela cidade. Como eu já tinha feito um passeio com minha mère, acabei preferindo ir correr na beira do rio que corta a cidade. É uma vista linda com um ar fresco perfeito para se exercitar enquanto não está muito frio.

As Aulas

Com o resultado da prova e as turmas separadas por nível, recebemos na terça de manhã nosso primeiro cronograma semanal, junto com diversas atividades que podemos fazer ao longo da semana. As aulas são separadas em dois tipos, as normais e os workshops, durante uma semana temos uma aula normal por dia, em que fazemos diversas apresentações, projetos em grupos, conversas temáticas, dentre outras atividades interessantes, tanto para a evolução do Frances, quanto para o conhecimento de outras culturas.

Vista para o Cavilam

Quanto aos workshops, eles ocorrem nas tardes de terça à quinta e nós podíamos escolher entre alguns tipos diferentes:

Oral – são aulas com muita conversação e pouca escrita, basicamente passamos a tarde inteira conversando entre os membros de nossa sala com alguma temática desejada pela professora. Além disso temos exercícios de compreensão oral que consistiam em escutar áudios gravados anteriormente e tentar responder a certas perguntas propostas pela professora.

Escrita – aulas baseadas em escrever a tarde inteira, possui diversas redações como dever de casa, porém ajuda enormemente na chegada à França, pois teremos que fazer relatórios logo em nosso primeiro mês de École Centrale.

Gramática –  de acordo com o que eu escutei dos meus amigos, é uma das mais cansativas. Nela, o objetivo é sair com todas as regras de gramática aprendidas (baseado em seu nível), logo existe um treino intenso de regras gramaticais durante os períodos da tarde.

Estudante – esse era um novo módulo criado pelo Cavilam, o objetivo dele era preparar estudantes internacionais que estavam vindo para a França começar seus estudos, uma boa parte dos meus amigos escolheram esse, porém a única diferença deste para a escrita é o vocabulário, que foca em setores mais especializados. Porém, de acordo com eles, são coisas que você aprende rapidamente durante as aulas iniciais, logo não existe necessidade de fazer o mesmo.

Pessoalmente, eu escolhi o workshop oral e não me arrependo nem um pouco da minha escolha, no início do Cavilam eu não conseguia nem ter uma conversação com a minha mère e ao fim de duas semanas de aula eu já estava conversando com a família inteira sobre assuntos cotidianos.

Diferenças Culturais

Acima de um curso de aprendizado de francês, Vichy foi para mim um primeiro contato com as mais diferentes culturas, pessoas dos quatro cantos do mundo se encontravam nessa pequena cidade no meio da França apenas para poder fazer um excelente curso de francês. Creio que foi nesse momento que eu comecei a criar gosto por conhecer e analisar novas culturas. Abaixo falarei um pouco sobre cada nacionalidade que eu cheguei a conhecer, porém, uma coisa que se deve ter em mente é que esse conceito que eu peguei dessas nacionalidades em Vichy, por vezes, pode estar errado, já que são poucas pessoas representando toda uma nacionalidade, logo o que estarei falando é apenas um conceito inicial sobre cada grupo, sem querer generalizar para todos.

Australiana – Foi minha primeira amiga em uma turma cheia de coreanos, chineses e japoneses. Era a que possuía o melhor francês entre todas as pessoas da sala, por isso foi razoavelmente mais fácil de conversar com ela. Uma característica que me surpreendeu muito nela era o fato de que ela tinha um pensamento semelhante aos dos meus avôs com relação ao poder dos homens sobre as mulheres, muito mais machista do que estamos acostumados nas faculdades brasileiras. Inclusive o motivo de ela estar fazendo o curso era porque o namorado dela considerava ideal que ela aprendesse francês, pois era uma língua bonita. De resto, era uma garota tímida e quieta, não falava muito sobre si mesma e nem sobre seu país.  

Russa – Conheci ela em uma das vezes que sai em Vichy, era da mesma sala que um amigo meu e estava imensamente interessada em conhecer melhor a cultura brasileira. Fizemos uma pequena social com 4 brasileiros e ela, falávamos uma mistura de francês, inglês e português. Pessoalmente acho a cultura russa muito interessante e minha amiga conseguiu atiçar ainda mais a minha curiosidade. Infelizmente ainda não consegui conhecer o país, e creio que vá ser muito difícil agora com o surto do Corona Vírus.  

Belga – Cheguei a falar com 5 belgas diferentes dentre minha estadia em Vichy, todos tinham uma coisa em comum, eram extremamente certinhos. Nunca esqueciam de fazer qualquer trabalho, levavam todos os tipos de exercício à sério e quase nunca víamos eles nas saídas noturnas. Enquanto conversávamos com eles nos passeios do Cavilam ou durante o almoço vimos que, mesmo sem saírem muito eles eram extremamente divertidos e interessantes.

Saudita – Conhecer alguém que possuía religião e cultura extremamente diferente da que eu estou acostumado é ao mesmo tempo interessante e desafiador. Com cerca de uns 40 anos, era extremamente religioso e fiel à sua cultura, gerando argumentações em torno de questões religiosas, políticas e feministas. Se levarmos em conta que, em seu país e religião, as mulheres não têm grande parte dos direitos que conhecemos no ocidente, podemos ter uma noção do nível que esses argumentos tomaram. Me lembro até hoje do momento em que ele falou que os homens podiam se casar com inúmeras mulheres, porém as mulheres só podem ter um homem. Nem preciso falar a revolta que isso causou nas pessoas da sala.

Coreanos e Chineses – Infelizmente terei que colocar os dois juntos, pois naquela época ainda não conseguia distinguir ambos. Sendo semelhantes fisicamente e na forma de participar em aula só tornava minha tarefa ainda mais difícil. Nunca cheguei a ver nenhum deles em sociais ou festas à noite, único contato que cheguei a ter com eles era em aula. Infelizmente, seja pela dificuldade com o francês, seja por cultura, eles não gostavam de desenvolver muito a conversa com outras pessoas, logo não aprendi muito com relação a eles. Única coisa em comum era a aplicação absurda que todos possuíam durante as aulas e nos deveres de casa.

Filipinos – Completamente inverso dos chineses e coreanos e em minha opinião os mais próximos do estilo carioca de ser.Geralmente vemos eles sempre sorrindo e alegres não importa onde estejam. Passam muito tempo com eles mesmos, porém em aula são bem participativos, principalmente nas discussões descontraídas, demonstrando um verdadeiro interesse em conhecer diversas outras culturas. Por vezes exageravam na falta de seriedade e eram repreendidos por isso, já que deixavam de fazer os deveres e não participavam das atividades mais sérias.

Toda essa interação com tantas pessoas diferentes desenvolveu dentro de mim um espirito de tentar aceitar e entender as diferenças, sem tentar impor minha opinião, desenvolvendo muito da minha escuta ativa. Estar de cabeça aberta é essencial para uma experiencia de intercambio e creio que essa estadia em Vichy me ajudou muito a isso.

RU / Bandejão

Como a cidade de Vichy não possui diversas opções de comida barata para seus estudantes, íamos quase sempre no restaurante universitário. Pagávamos 3 euros, aproximadamente 12 reais, e recebíamos um prato com legumes e algum tipo de carne. Sinceramente a qualidade do restaurante era muito insuficiente. Tínhamos também a possibilidade de pegar “side plates”, ou seja, aperitivos e/ou sobremesas, de acordo com o que desejávamos. Estes já eram um pouco melhores do que os pratos principais, porém não conseguiam acabar com a fome.

Restaurante Universitário em Vichy

Em uma comparação rápida com as universidades brasileiras, podemos ver que, independente do ponto de vista aplicado, os bandejões no brasil são melhores. Se procurarmos por preços baratos, temos uma qualidade de comida parelha ao de Vichy, porém estes não chegam a passar de 3 reais. Enquanto isso, se analisarmos do ponto de vista de qualidade, os locais que possuem a melhor qualidade, custam 9 reais, e possuem uma qualidade de comida muito acima deste de Vichy.

Vida Noturna

Esse ponto vai ser meio contraditório dependendo do tipo de grupo em que você se encaixou. A cidade em si não oferece muitas possibilidades, possui alguns bares-restaurantes, onde apreciamos um bom vinho e degustamos de alguma comida típica da região. Para mim, as saídas a noite giraram em torno de sair com outros brasileiros e ficar bebendo ao longo do rio que cruza a cidade. Além disso, também fazíamos sociais nas casas daqueles que moravam sozinhos e  participávamos das festas de sexta feira a noite organizadas pelo Cavilam.

Eventos

Durante nossa estadia em Vichy, temos bastante tempo à toa na cidade, porém esse tempo é prontamente ocupado pelo Cavilam através dos mais diversos eventos. Geralmente existe um padrão de atividades dentro de uma semana, o que significa que, independente da semana que você chegar, você terá a possibilidade de fazer praticamente as mesmas atividades que as pessoas que vieram antes e as que vem depois. Como era início da minha estadia aqui, ainda convertia tudo do euro para o real, achando tudo caro, o que fez com que eu evitasse de praticar algumas atividades.

Puy-de-Dôme – um dos melhores passeios que eu fiz durante minha estadia, mas também um dos mais cansativos. Vamos em um ônibus fretado com outros estudantes de Vichy para a base deste vulcão, lá começamos a subir uma exaustiva caminhada de mais de 100 andares (ou pelo menos foi isso que a aplicação no meu celular disse). Uma vez no topo do morro, temos um tempo para passear e tirar fotos antes de voltarmos. Para alguém que nunca tinha visto um vulcão e não conhecia muito de lugares naturais, essa primeira experiência de chegar ao topo do vulcão foi algo sensacional.  Aqueles que tiverem a possibilidade de voltar sozinhos depois, vale a pena pagar para fazer o passeio de asa-delta e ter uma das mais belas visões do local. Quem desejar fazer toda a subida a pé, recomendo levar uma bolsa com bastante água e um tênis extremamente confortável.

Vista do Puy de Dome de cima

Canoagem – escolhi fazer esse passeio pois nunca tinha feito canoagem na vida, então queria ter uma primeira experiência. Vale a pena fazer em um grande grupo, participando de corridas e tentando derrubar uns aos outros do barco, porém, aqueles que já fizeram esse esporte e não estão acompanhados de muitos amigos podem acabar tendo um passeio um tanto quanto monótono. Recomendo levar bastante água e roupas prontas para molhar e sujar de lama. Em baixa temporada de chuva é essencial ir de tênis, pois por diversas vezes o caiaque trava nas pedras e temos que sair para empurrar.

Rafting – apesar do preço mais caro, como nunca tinha feito, decidi pagar para ver, o local é perto do Cavilam e é um caminho feito artificialmente, porém, no dia começou a cair um temporal e devido ao perigo da alta correnteza não fomos permitidos de descer, sendo reembolsados depois. Creio que valha a pena fazer caso tenha dinheiro sobrando e nunca tenha feito, porém, para aqueles já experimentados ou sem muito dinheiro, existem outras atividades mais interessantes.

Clermont Ferrant – cidade próxima de Vichy, que é valido para aqueles que não conhecem muito da França e mal podem esperar para conhecer. Se não for agora, dificilmente você irá visitar essa pequena cidade ao longo de sua estadia na França.

Clermont Ferrant

Trilhas – diversos passeios pela natureza são disponíveis pelo Cavilam, para aqueles amantes de trilha, existem pelo menos umas 3 trilhas diferentes para fazer, passando desde florestas fechadas até lugares com vistas lindas do topo de montanhas.

Lagos – dentre algumas das trilhas, umas delas possui um lago, que era a cratera de um vulcão e que, caso esteja em um dia quente, possui uma água maravilhosa para entrar. Não se esqueçam de levar água e alguma coisa para lanchar, as coisas lá são bem caras.

Minha Experiência

Vichy acabou sendo um momento de contato inicial com a cultura francesa. Ajudou muito a aliviar o baque que eu teria ao ir direto para a faculdade. Durante esse tempo consegui ter contato com a cultura e comida francesa, tendo tempo para me adaptar a ela sem necessidade de levar o peso de uma faculdade junto.

Além disso consegui contato com pessoas das outras Centrales, criando a possibilidade de ter estadia para visitar outras cidades francesas e ampliar ainda mais meus conhecimentos da cultura francesa. Como todos estamos na mesma situação, de deixar amigos e família no Brasil, acaba ficando muito mais fácil de se enturmar, pois todos estamos dispostos a se abrir para uma rede de amigos.

Por vezes podemos pensar que apenas duas semanas é pouco tempo para criar uma amizade forte com essas pessoas, e em situações normais, isso é verdade, porém com o estado de espírito que todos estavam, criamos laços muito mais fortes do que geralmente é possível. Esses laços eram tão fortes que ao final de nossa estadia estávamos fazendo uma festa de despedida para cada pessoa que estava em nosso grupo de amigos.

Durante a minha festa de despedida, tive duas experiências que gostaria de compartilhar aqui, a primeira delas, foi o que iniciou a festa, que foi a feira de cultura, na qual conhecemos todas as culturas presentes no Cavilam e tentamos apresentar nossa cultura para os outros, foi, definitivamente, a feira mais animada que eu já fui. Após isso ficamos ao longo do rio bebendo e conversando, tentando ao máximo criar um bom ambiente para todos.

Ao final disso, uma pessoa da minha mesma faculdade no Brasil estava passando mal, então precisávamos levar ela para a casa, porém ela não conseguia nem andar e a casa dela era a mais de 15 minutos andando de onde estávamos. Vendo essa cena, um carro de franceses com aproximadamente a minha idade parou para poder nos ajudar, levaram eu e a garota para a casa dela, me esperaram deixar ela na cama e me levaram de volta para o local onde todos estavam, sem pedir nada em troca, inclusive deixando dois amigos na rua para liberar espaço no carro. Foi realmente uma experiência única e que mudou de vez a minha imagem dos franceses.

No geral, minha experiência no Cavilam foi muito boa e me forneceu muita experiência para conseguir seguir em frente com todas as coisas que eu eventualmente tive na Centrale Lille. Recomendaria para todos que tem disponibilidade de fazer.

Publicado por Leonardo Guimarães

Prazer a todos. Me chamo Leonardo Chaves e estou criando esse blog com o objetivo de transmitir as experiencias e as informaçoes mais importantes sobre uma vida em intercambio. Fiz um Duplo Diploma na école centrale lille entre 2018 e 2020.

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