A Vida Associativa

Aqueles que vieram do Brasil, muito provavelmente chegaram a participar de alguma associação ou equipe de competição durante a estadia na faculdade. Aqui na França, muitas dessas pessoas que se mostraram extremamente interessadas nessas equipes em seu país, acabaram por mal participar da vida associativa da França. E te garanto que isso não foi por falta de oportunidade.

Nas faculdades de engenharia do Brasil temos cinco ou mais equipes de competição por faculdade. Robótica, aviação, foguete, carro de corrida e baja são ótimos exemplos. Algumas possuem ainda consultoria, empresa júnior e mercado financeiro, envolvendo projetos com pequenas empresas, incubadoras e parceiras da faculdade. Ainda temos uma boa quantidade de grupos sociais, envolvendo movimentos por igualdade de gênero e de raça. Além disso, temos as associações esportistas, que se encontram extremamente presentes no mundo universitário brasileiro. Por fim, quase toda faculdade tem também seu escritório de estudantes e o de esportes.

Considerando esse parágrafo acima e comparando com as associações francesas, vemos que as quantidades e temas das associações são próximas aos do Brasil, logo o motivo de não ter a presença dos brasileiros não é por falta de opção ou por presença de temáticas que não nos interessem.  Tendo isso em vista, vamos seguir para outros pontos de comparação para tentarmos chegar ao problema.

Se pensarmos em questão de carga horaria, podemos usar como base de dados as experiencias que eu e diversos amigos meus tivemos no Brasil, comparando com a experiencia que estou tendo na França. Tentarei separar entre os diferentes tipos de equipe, já que a carga horaria varia muito.

Primeiramente vendo o âmbito de equipes de competição brasileiras, usarei a comparação com a RioBotz, equipe de robótica da PUC-Rio, na qual eu mesmo participei como coordenador de 3 setores diferentes. Nela tínhamos a carga horária livre, usando o tempo entre as aulas e antes de voltar para a casa para podermos trabalhar em nosso laboratório. Além disso, íamos em fins de semana próximos de competição para trabalhar durante os dois dias. No geral, uma pessoa média, sem ser coordenador ou presidente, passava cerca de 5 horas por dia no laboratório, porém em véspera de competição esse número poderia aumentar para até 10 horas por dia. Como coordenador, eu passava mais de 12 horas por dia no laboratório em véspera de competição, virando noites quando necessário para terminar o robô.

Foto da equipe em 2018.

No ramo empresarial, usarei a empresa júnior como exemplo. Elas fazem uma função de consultoria em menor escala, trabalham nas empresas com o objetivo de ajudar elas com os problemas de financiamento, projetos e pessoas. Em questão de trabalho, geralmente as pessoas ficam cerca de 5 horas por dia na sala que a EJ possui e algumas outras horas por semana em reunião com as empresas parceiras. É bem raro ver as pessoas em fim de semana, mas o trabalho que eles levam para casa é considerável.

Com relação ao ramo social, o trabalho é um pouco menos pesado, porém os projetos são de larga escala, com uma enorme quantidade de pessoas, logo, para aqueles responsáveis pela administração de todo esse sistema acabava sendo diversas horas por dia de trabalho. Porém, para aqueles que não trabalhavam diretamente com a administração das coisas, tínhamos uma média de cerca de 10 horas por semana de trabalho manual e de escritório.

Por fim, do setor de esportes, temos o setor mais próximo da França, com dois a quatro treinos por semana, envolvendo a equipe inteira. A diferença entre ambas é mais ligada ao processo seletivo. No Brasil, trabalhamos com um limite de pessoas para entrar, de forma que esse grupo é o mesmo que vai treinar para as competições. Outro ponto gritante de diferença é o cheerleader em particular. Na França esta mais para uma dança usando pompons, começando a evoluir para o nível que chegamos no Brasil.  

Obviamente que as horas de trabalho e a experiencia variam de acordo com a faculdade, carga horaria e responsabilidade da pessoa na equipe. O que estou supondo é usando apenas de dados das faculdades em que tenho amigos, ou seja, a realidade pode vir a ser razoavelmente diferente. O que importa é a comparação dessas altas horas de trabalho, com as que temos na França.

Praticamente todas as associações francesas têm uma carga horária extremamente baixa, apenas 4 horas da nossa semana são liberadas para a mesma pela faculdade e essas mesmas 4 horas são divididas entre todas as associações que escolhemos. Se compararmos com qualquer um dos casos do Brasil vemos que temos claramente menos tempo, gerando pouca contribuição com a associação e projetos pouco criativos e descomplicados. Poucas associações se livram desse ciclo vicioso, de trabalhos constantes e iguais, sem criatividade, sem perspectiva de projetos novos e, por vezes, sem evolução dos projetos antigos.

Agora que vimos essa grande diferença entre ambos, podemos então começar uma análise para tentar descobrir o que que essa grande diferença influência nas entradas dos brasileiros nas associações. Essa influência é totalmente ligada à queda de motivação das pessoas para com os trabalhos em associações.

A motivação de uma pessoa é diretamente ligada ao que ela faz, o que ela consegue completar, ao senso de importância que ela tem das coisas que ela faz e o que ela sente que consegue aprender fazendo o trabalho. Assim, podemos ver que, trabalhando mais, por mais tempo, de forma mais produtiva, acaba atingindo mais as pessoas e motivando mais elas a continuar nesse trabalho. É muito difícil ver alguém em uma equipe do Brasil, que sente que seu trabalho não está sendo produtivo, que não é importante, ou então que não está adquirindo conhecimento. Isso é ainda mais difícil em equipes de competição onde o resultado de vitória permite uma satisfação inimaginável.

Agora você pergunta, e porque as associações francesas não conseguem gerar essa motivação nas pessoas? Bem, a questão é simplesmente o objetivo dessas associações:

  • Venda de sanduiches para Centralianos
  • Venda de Kebab para Centralianos
  • Fazer um jornal que a parte mais lida é a de fofoca
  • Tirar e postar fotos
  • Jogar jogos de tabuleiro

Existem diversas outras associações que possuem o objetivo simples de diversão, fazendo coisas que não geram muita evolução pessoal ou profissional. Para mim, isso é o equivalente a participar de um grupo de amigos com um interesse em comum, como cozinhar, fazer fofocas e tirar fotos (sim existem associações para os três tipos). E é aí que vem a principal diferença, nós viemos do Brasil, e estamos enraizados com uma cultura de que se é para eu gastar meu tempo em uma associação, que seja para fazer algo grandioso e que agregue coisas para mim, exatamente por isso que acabamos evitando de entrar nessas associações e procuramos coisas externas à faculdade para ocuparmos nosso tempo. (Estou falando nesse caso por mim e pela maior parte dos brasileiros presentes aqui em Lille)

Para não ser injusto com algumas associações, temos aquelas sérias e que valem a pena entrar, aquelas que possuem projetos realmente importantes e/ou inovadores, permitindo evolução pessoal e profissional. Dentre elas posso citar: Foy’s, Club Time, CLAP, BDXs, Rezoleo, Forum Rencontre, Gala, ISF e a Empresa Junior.

Publicado por Leonardo Guimarães

Prazer a todos. Me chamo Leonardo Chaves e estou criando esse blog com o objetivo de transmitir as experiencias e as informaçoes mais importantes sobre uma vida em intercambio. Fiz um Duplo Diploma na école centrale lille entre 2018 e 2020.

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