Residencia

A partir do momento que você chega em Lille é importante ter noção de que, pelos próximos dois anos você provavelmente irá morar na Residência Leonard de Vinci, em Villeneuve d’Ascq. Única exceção é para aqueles que conseguem fechar um grupo de 3 ou 4 pessoas e decidem morar em Lille. Além disso, os internacionais ficam o primeiro ano inteiro na residência, com raras exceções. É por esse motivo que vou tentar dar uma boa noção para vocês de como é a residência e como é morar nela.

A menos de 15 minutos a pé da École e a apenas 2 estações de metro de um grande centro comercial, o V2, a localização dela é ótima para aqueles que gostam de uma vida tranquila, longe de cidade grande e com facilidade de ir e voltar da faculdade. Tudo em volta da residência é criado para dar suporte aos jovens universitários, com inúmeras outras residências, faculdades e 3 restaurantes universitários. Além disso, o tráfico de carro é baixo e existe a possibilidade de chegar em qualquer faculdade da região em menos de 30 minutos a pé.

Corrida realizada contra o cancer dentro da residencia.

Além disso, ainda existe um meio de transporte conhecido como Navette Autônoma, infelizmente cancelada devido ao período de quarentena do Covid-19. Ela ligava a estação de metrô mais perto da resistência com a da École. Ela era tão lenta para fazer esse trajeto que virou um meme entre os centralianos, existindo desafios de entrar nela com as coisas mais bizarras possíveis.

O carro autônomo circulando pelas ruas de Villeneuve d’Ascq

Estruturalmente a residência é praticamente perfeita, não consigo encontrar reais pontos negativos nela. Possui 6 blocos para moradia, do A ao F. Os 3 primeiros são interligados, logo, durante o inverno, para transitar entre esses três blocos não existe a necessidade de ir ao frio. Cada um desses blocos possui 4 andares (do 0 ao 3, 4 andares no total). Infelizmente a única via de acesso aos andares mais altos é por escada, não existindo qualquer pensamento quanto a acessibilidade dos deficientes. Com relação aos quartos, temos os individuais e os duplos, ambos com tamanhos variados, existindo desde aqueles em que mal cabe a cama e a mesa de escritório (obviamente exagerando aqui!) e aqueles em que você consegue colocar 8 sofás dentro, eu vivi os dois extremos.

Fim de tarde na Residência Leonard de Vinci

Durante meu primeiro ano tive um quarto individual pequeno, possuía um minúsculo espaço para a cozinha, cabendo no máximo 3 ou 4 pessoas. Um banheiro de tamanho médio e um quarto pequeno. Nele eu tinha um sofá pequeno, cama, armário e mesa de escritório, possuindo muito pouco espaço para andar pelo quarto. Independente disso, o quarto é muito confortável, possui uma janela gigante com a opção de deixa-la fechada 100%, aberta em cima e completamente aberta, permitindo regular a troca de temperatura.

Os equipamentos que já vem com o quarto envolvem: uma cama de solteiro razoavelmente confortável, um armário prateleira, com cerca de 7 andares, um criado mudo ou uma estante acima da cama (varia de quarto para quarto) e uma grande mesa de escritório. Além disso, possui também um aquecedor que, na maioria dos casos, faz um bom papel em aquecer a casa. No caso do aquecedor algumas pessoas reclamam que não esquenta muito e outras preferem deixar desligado para preservar a água quente para outras coisas, então é um assunto um pouco controverso do quão útil ele é. Caso seja friorento, é muito recomendado pegar um aquecedor portátil.

Meu quarto durante o segundo ano

Indo para a área da cozinha temos duas bocas de fogão, uma grande e outra pequena. Tome cuidado depois que lavar elas, umidade na boca do fogão faz o disjuntor saltar o tempo inteiro. No mais, existe uma geladeira grande o suficiente para até duas pessoas, porém com um espaço no freezer realmente minúsculo. Ela é diferente do apartamento individual para o duplo, porém a mudança de tamanho é tão pequena que quase não faz diferença. Nos apartamentos duplos tem dois ou três armários duplos, variando de acordo com o tamanho do apartamento, enquanto no simples esse número é de um ou dois. armário duplo, que geralmente é usado para coisas compartilhadas. Já nos simples, existe apenas um armário nos quartos menores e dois armários nos maiores. Além disso, existe um pequeno armário embaixo da pia e uma estante em cima para ambos os tipos de quarto.

Exemplo de cozinha da residência

Por fim, os banheiros são diferentes para cada tipo de quarto, o individual possui o chuveiro e a privada no mesmo ambiente, enquanto os apartamentos duplos a privada é em um lugar e o chuveiro em outro. Isso acontece para evitar que, enquanto uma pessoa precise ir tomar banho, outra precise ir ao banheiro. Único problema é ter que ir lavar a mão em outro ambiente cada vez que usar o banheiro.

No geral, esses são os detalhes dos quartos da residência, existem algumas especificidades para cada casa, como espelhos, estantes e outras coisas extras, que são deixadas pelos residentes antigos. Porém o básico que você irá encontrar vindo para cá é o que descrevi acima.

Falando do serviço de assistência, qualquer coisa que quebre ou que esteja com o menor mal funcionamento é trocada cerca de 2 dias depois da reclamação. Já perdi a conta de quantas lâmpadas que eu tive trocadas porque queimaram. Também já recebi conserto na minha janela, geladeira, fogão, ralo, entre outros.

Dentro de cada um dos prédios existem algumas áreas comuns, com espaço suficiente para uma social de 10 ou mais pessoas. Elas são usadas ao longo do dia para fazer algumas aulas, como dança e yoga, porém, para aqueles que desejam fazer uma social nesses lugares, tome cuidado, na teoria é proibido, então se o segurança da residência descobrir se prepare para levar uma bronca. Por isso é recomendado fazer esses eventos apenas quando a residência está vazia ou em dias de torcho (algo que explicarei mais a frente).

Embaixo do prédio B e do prédio D temos setores reservados para as associações utilizarem, seja como escritório, seja como local de evento. Temos também 4 bicicletários, vários lixos e 3 lavanderias, com 4 máquinas de lavar e 4 secadoras em cada. Mais recentemente eles as atualizaram, de forma que quase todas estejam em boa qualidade.

Além disso tudo, ainda existe mais dois prédios dentro da residência, um deles é o que chamamos de foyer. Esse prédio é o local de festas associativas, reservamos o lugar por cerca de 15 euros e podemos usar das 20 as 24. Obviamente existem diversas regras que devemos respeitar, porém é um dos lugares mais divertidos de se passar o tempo, tendo festas cerca de 5 dias por semana. Nesse mesmo prédio tem também a academia e uma sala maior, usada para lutas e danças.

Foyer durante o evento GOST

O último prédio é o que se encontra ao lado da entrada principal, chamado de accueil (acolho em português). É onde fica a segurança da residência, o local de requerimentos e reclamações dos quartos e onde pedimos ajuda em casos de problemas urgentes. No segundo andar desse prédio fica localizada a maior parte das áreas de música.

A dinâmica de vida da residência é interessante, ao mesmo tempo em que, por vezes, falta um pouco de privacidade também existem momentos em que nos sentimos sozinhos. Existem diversas formas de viver aqui, depende tudo de como você prefere, se você for uma pessoa que gosta mais de solidão, ou então uma pessoa que gosta de estar sempre cercado de outras pessoas, as possibilidades daqui são infinitas. Durante o segundo ano algumas pessoas se mudam para a cidade grande, para viver mais perto de centros populacionais, mais cercada de pessoas. Eu preferi ficar na residência por questão e praticidade, porém não acredito que seria muito ruim ter indo para Lille.

Integração Internacional em Lille

Durante as duas primeiras semanas de estadia em Lille, temos a quinzena da semana Integração Internacional. Durante esse tempo, temos diversos eventos de integração para as mais diferentes nacionalidades, assim como diversas responsabilidades burocráticas para resolver. No geral, são duas semanas bem tranquilas em que nos divertimos muito e seguimos o cronograma burocrático da École.

Ainda antes de virmos para a França, recebemos um e-mail da École dizendo para chegarmos em Lille na sexta-feira, dia 23 de agosto. Como esse e-mail tinha sido mandado com pouca antecedência, acabou que houve diversos internacionais que chegaram antes ou depois da data marcada, gerando um pouco de bagunça. Aqueles que chegaram antes foram hospedados nos quartos de alguns dos meus veteranos e os que chegaram depois receberam todo o suporte para preencher a burocracia a tempo. Mesmo com um pouco de bagunça, todo o suporte que recebemos acabou permitindo que nosso início aqui não possuísse grandes problemas.

O meu caso foi mais simples do que a maioria. Junto com dois outros brasileiros, podíamos adiantar ou adiar nossa estadia em Vichy, permitindo que chegássemos na data desejada pela école.  Depois de pegar um trem de Vichy para Paris e um FlixBus de Paris para Lille, chegamos por volta do fim da tarde na Gare Lille Europe. Ao chegarmos lá, o Presidente e o Vice-Presidente da associação de estrangeiros, chamada aqui de Club Time, estavam nos esperando para nos levar à Residência Leonard de Vinci, onde passarei meus próximos dois anos.

Chegando na residência fomos recebidos pela responsável dos estudantes internacionais, Mme Bukowski, que nos deu a chave de nosso apartamento e nos apresentou um pouco da residência. Como eu estava desanimado para minha vinda e, por isso, não tinha me enturmado muito com os outros brasileiros no grupo do WhatsApp, acabei escolhendo morar sozinho. Dessa forma não teria que me preocupar com ficar incomodado com algum companheiro de quarto inconveniente.

Para não falar especificamente de cada dia dessa quinzena e acabar com um texto gigantesco e maçante, resumirei um pouco cada um dos eventos dessa época, sem comentar muito da minha própria experiência e focando mais no geral. Abaixo segue a lista de eventos que irei me aprofundar depois:

  • Eventos de comida
    • Café da manhã
    • Brunch
    • Almoço
    • Lanche
    • Janta
  • Eventos alcóolicos
    • Soirées
    • Barathon
    • Colocathon
    • Churrasco
  • Eventos Burocráticos
    • Inscrição na École
    • Securité Sociale
    • Abertura de Conta no Banco
    • SMENO
  • Aulas
    • Matemática
    • Frances
  • Outros
    • Auchan
    • Braderie
    • Partage
    • IKEA
    • Parrainage

Eventos de Comida

O objetivo desses tipos de evento era facilitar a nossa vida, já que quase não tínhamos utensílios de cozinha e ainda não tínhamos tido tempo de ir ao mercado comprar comida para cozinhar para nós mesmos. Além disso, eles ajudavam a conhecermos todos os internacionais que estavam na mesma situação que nos, seja chinês, espanhol, chileno, mexicano, indiano ou japonês. Infelizmente o nível de francês da maioria das pessoas ainda não é suficiente para uma boa conversa, assim tendemos a ficar mais com a nossa própria nacionalidade.

No geral, durante o café da manhã, tínhamos o padrão francês, com croissant e pain au chocolat, sem nada demais. Porém, no almoço chegamos até a ter ratatouille como prato principal e na janta geralmente era pizza ou algum delivery. Tudo isso, na maioria das vezes, gratuitamente, bancado, ou pela Centrale Lille, ou pelo Club Time.

Eventos Alcóolicos

Como cada evento dessa área tem sua própria característica, acaba que falar deles no geral fica um pouco complicado e sem profundidade, para isso, separarei em pequenos tópicos para poder falar mais especificamente do que me lembro de cada um.

Soirées

Uma soirée na França é basicamente uma festa, com bebida paga, em algum local específico. No nosso caso, durante a integração, tínhamos a companhia dos franceses veteranos que chegaram mais cedo na Centrale e dos outros internacionais. Geralmente a proposta delas é de fazer a integração entre as nacionalidades, porém mais uma vez devido ao francês fraco, acabamos tendo muita dificuldade para tal coisa e preferimos ficar entre as pessoas de mesma nacionalidade. Acredito que tivemos umas 3 ou 4 soirées gerais durante os 15 dias de nosso período de integração, as outras noites eram preenchidas por eventos entre brasileiros.

Foto de uma soirée ao longo do ano de 2019

Barathon

Um evento um tanto quanto diferente com o que estamos acostumados no Brasil, é basicamente uma maratona de bares em Lille. É interessante participar, porém apenas uma vez. O primeiro evento desse gênero possui apenas internacionais enquanto o segundo, cerca de um mês depois, conta com a presença dos franceses. O objetivo é apresentar a vida noturna de Lille para todas as pessoas que estão chegando, internacionais ou não, já que grande parte dos franceses não conhecem Lille, pois vem de escolas de outras áreas.

Digo que não vale a pena ir uma segunda vez para ele pois, além de possuir uma taxa de inscrição, nem todos os bares que passamos são legais, assim, uma vez que você conhece a vida noturna local, esse evento vira um desperdício de tempo e dinheiro.

Colocathon

O evento mais esperado pelos calouros é o Colocathon, nele ficamos 1 hora em cada moradia de estudante centraliano em Lille, passando no total, em 4 residências, começando as 8 e terminando meia noite. O interessante desse evento é o preço em comparação com a quantidade de álcool, basicamente pagamos 3 euros para ter um open bar de vinho, cerveja, pastisse, rum, vodca e outros. Obviamente as bebidas não são de qualidade, porém os jogos desenvolvidos pelos nossos veteranos e o ambiente que é montado é algo realmente inesquecível. Como é o evento que envolve mais álcool, acaba sendo também um dos eventos mais integradores, permitindo às pessoas de se soltar e tentar a sorte nas outras línguas.

Churrasco

Esse último evento é apenas brasileiro, já que é algo mais cultural nosso. Apesar da qualidade da carne não ser equivalente à do Brasil, o estilo do evento não muda muito com relação ao que fazemos no Brasil. Eventualmente acabamos fazendo cerca de uns 4 churrascos ao longo do ano, tendo um grande intervalo entre outubro e março devido ao frio.

Eventos Burocráticos

Inscrição na École

Primeiro evento burocrático que existe na École, é a primeira vez que conhecemos ela e vemos sua infraestrutura, da qual falarei depois. Basicamente são umas duas horas nas quais devemos preencher diversos formulários de acordo com o que nossos veteranos vão explicando.

Securité Sociale

Um dos maiores problemas burocráticos da França. Nunca sabemos se temos que pagar algo, se está incluso no que já pagamos, vamos descobrindo ao longo do tempo. A falta de comunicação é tão grande que nem mesmo a responsável pelos estudantes internacionais sabe, já que a cada ano eles resolvem mudar alguma coisa e decidem não avisar. É basicamente o seguro de saúde obrigatório para todos. No meu caso, devido à inúmeros problemas burocráticos, eu passei meus dois anos sem conseguir o seguro definitivo.

Abertura de Conta no Banco

Esse evento não é controlado pela École, apenas pelo Club Time. Os membros da associação de estudantes internacionais acompanham os calouros para o banco e auxiliam na criação da conta. Claro que, aqueles que quiserem abrir conta em outros bancos possuem total liberdade para fazer isso, porém, não receberão ajuda direta da associação. O que a maioria faz é abrir essa conta no BNP através do CT e posteriormente uma conta no N26, um outro banco europeu com um suporte melhor para o internacional.

SMENO

Funciona como um bônus para a Securité, complementando o seguro de saúde público. Temos a opção de pegar o médio, grande e extragrande, porem na maioria dos casos o grande é suficiente. Obviamente que ter um seguro de saúde que cobre o resto de seus gastos é sempre bom, porém, por diversas vezes a burocracia para tal é tão grande que acabamos nunca conseguindo o reembolso. Algumas pessoas já não têm mais esse seguro durante o segundo ano devido aos conflitos que tiveram com eles ao longo do primeiro contrato. Pessoalmente eu consegui reembolso uma vez, para um anti-inflamatório e uma tala, apenas.

Aulas

Durante as duas primeiras semanas intercalamos os diversos eventos que temos com os dois tipos de aula que vemos abaixo, gerando cerca de umas 10 a 14 horas por semana.

Matemática

Tivemos uma revisão geral das matérias que já vimos na faculdade brasileira, desta vez com um foco mais teórico. Creio que o objetivo seja de preparar as pessoas para o impacto que a matéria de analise pode causar, porem pouco funciona, já que o salto de uma matéria para a outra é gigantesco. Aqueles alunos mais tranquilos, que não estavam tão preocupados com o que estava por vir, acabavam simplesmente ignorando as aulas pois não a achavam útil, enquanto aqueles que tentavam compreender algo perdiam uma parte da integração estudando para as aulas.

Frances

Foi o primeiro contato ao vivo com a professora Veronique Dziwniel, uma das pessoas que mais nos ajudava antes de nossa chegada. Ela é a pessoa que você pode pedir ajuda para qualquer coisa, seja problemas de saúde mental, física, dúvidas sobre futuro ou até mesmo problemas pessoais.

No geral as aulas de francês são bem legais e interativas, tendo apenas um problema, o de ser niveladas por baixo, ou seja, o nível de francês que aprendemos é igual ao nível das pessoas mais fracas da sala. Isso fez com que a maioria das pessoas acabassem não tendo uma evolução tão grande no francês nas primeiras semanas. Para aqueles que chegaram aqui com A1 ou A2, ou aqueles que não fizeram o período de adaptação em Vichy, creio que a aula tenha sido mais produtiva do que para aqueles com um conhecimento maior.

Outros

Por fim, existem também alguns outros eventos que estão presentes nessa semana, mas que não estão ligados a École e por isso, são totalmente opcionais para os calouros. Sendo apenas feito pelo proprio CT ou pelos brasileiros.

Auchan

Aqueles do Rio de Janeiro podem entender o Auchan como uma rede de supermercados do tamanho de um Mundial ou um Guanabara, é uma das mais conhecidas na França e é a mais perto da residência. O horário reservado no calendário para o Auchan é o momento em que os veteranos nos acompanham ao mercado e nos ajudam com dicas de produtos que serão essenciais e como economizar. Ir nesse evento ajuda a economizar nas coisas que valem a pena e também a já comprar todas as coisas que serão necessárias mais à frente.

Imagem do Auchan

Braderie

Um dos maiores eventos que Lille tem, diversas famílias comerciam coisas dos mais diferentes tipos, antiguidades, artesanato, comidas típicas, bicicletas, peças de ferro velho e diversas outras coisas. É conveniente ela acontecer logo na nossa primeira semana aqui, já que temos uma quantidade gigantesca de coisas que podemos comprar, por preços extremamente baixos. A maior parte dos brasileiros que possuem uma bicicleta atualmente compraram as deles lá. A maioria por menos de 30 euros.

Imagem de Lille em plena Braderie

Partage

O maior evento do Club Time, envolve dezenas de moveis estocados ao longo do ano para doar aos calouros internacionais que estão chegando. É um dia inteiro dedicado à entrega deles, mobiliando a casa de todas as pessoas. No meu ano tive um sofá, micro-ondas, forno, armário, cesto de roupa suja e diversas outras coisas menores, como prato, copo e talher. No nosso ano tínhamos mais de 20 sofás estocados.

IKEA

Ocorre um ou dois dias depois do Partage, e serve para as compras daquilo que não foi possível ter pelo partage. Além de acompanharmos eles até o local, fazemos o mesmo durante as compras, dando dicas de preço e do quão valioso é algo para o quarto ou não. Para completar, levamos uma van da marca Master, para poder carregar os moveis grandes de volta à residência, assim eles não precisam se preocupar em carregar coisas pesadas no metro.  

Imagem do Ikea mais próximo de Lille

Vichy – As primeiras experiências

Conhecendo a cidade

Acredito que depois de citar tantas vezes Vichy, eu preciso fornecer um pouco de explicação sobre o que existe lá e o porquê de eu estar indo para lá. Meu motivo não podia ser mais simples, aprimorar meu francês fazendo um curso recomendado pela École Centrale de Lille enquanto não começavam as minhas obrigações na cidade onde morarei pelos próximos dois anos.

Eu gosto muito de dizer que tive sorte por ter conseguido a Brafitec, pois para poder ter essa bolsa, é necessário um nível mínimo de B1 em francês e isso era algo que, no momento do exame de proficiência, eu tinha quase certeza que eu não tinha, porém, a sorte sorriu para mim e consegui o nível mínimo para a bolsa. Como não me sentia preparado para me aventurar pelos cantos da França apenas com o francês que eu possuía, decidi ficar duas semanas estudando em imersão total na cultura e na língua, o suficiente para ganhar confiança e um pouco mais de vocabulário.

Quando cheguei na estação da cidade minha “mère”, que é como chamávamos as pessoas que nos acolhiam durante nossa estadia, estava lá para me buscar e levar para casa. No caminho de 15 minutos a pé entre a estação e a casa ela me apresentou a cidade e me contou um pouco de sua história.

Localizada na região da Auvérnia-Ródano-Alpes e próxima de Clermont-Ferrand, já foi capital da França durante a segunda guerra. Com cerca de 60 000 habitantes, Vichy é conhecida por ser uma cidade termal que originou o nome de uma famosa marca de cosméticos chamada “Vichy Laboratoires”. Em suma, é uma cidade extremamente tranquila para se morar, sem tumulto de cidade de grande e possibilitando andar tranquilamente em qualquer parte da cidade.

Parque de Vichy

Finalizado meu tour pela cidade, voltei para minha casa para poder descansar na hora certa e tentar acabar com o famoso efeito de “Jet Lag”, já que no dia seguinte começavam as aulas.

O Cavilam

Sabendo que eu ainda estava sem 3g no momento, minha mère me acompanhou até a sede do Cavilam, local onde eu teria todas as minhas aulas pelas próximas duas semanas. Em todo o ano, o momento de mais movimentação na cidade é exatamente nas férias de verão, com o curso de francês. Chegamos a mais de 1000 estudantes em apenas uma semana, desses cerca de 70 sendo brasileiros. Ele é dividido em três áreas, o setor principal, onde fica a administração e algumas salas de aula, um secundário, que possui umas salas de aula mais amplas, utilizadas para os workshops da tarde e um outro, que possui salas de aulas menores e é bem mais apertado.

No primeiro dia de aula temos apenas uma primeira prova de cerca de uma hora de duração que define a turma que iremos começar. Essa prova tem uma parte de compreensão oral e outra de compreensão escrita, o resultado é divulgado pela manhã do dia seguinte. Após isso temos o resto do dia livre para visitar a cidade e resolver problemas como chip de celular e conta no banco, além de, ao final do dia, podermos fazer um passeio com guia turístico pela cidade. Como eu já tinha feito um passeio com minha mère, acabei preferindo ir correr na beira do rio que corta a cidade. É uma vista linda com um ar fresco perfeito para se exercitar enquanto não está muito frio.

As Aulas

Com o resultado da prova e as turmas separadas por nível, recebemos na terça de manhã nosso primeiro cronograma semanal, junto com diversas atividades que podemos fazer ao longo da semana. As aulas são separadas em dois tipos, as normais e os workshops, durante uma semana temos uma aula normal por dia, em que fazemos diversas apresentações, projetos em grupos, conversas temáticas, dentre outras atividades interessantes, tanto para a evolução do Frances, quanto para o conhecimento de outras culturas.

Vista para o Cavilam

Quanto aos workshops, eles ocorrem nas tardes de terça à quinta e nós podíamos escolher entre alguns tipos diferentes:

Oral – são aulas com muita conversação e pouca escrita, basicamente passamos a tarde inteira conversando entre os membros de nossa sala com alguma temática desejada pela professora. Além disso temos exercícios de compreensão oral que consistiam em escutar áudios gravados anteriormente e tentar responder a certas perguntas propostas pela professora.

Escrita – aulas baseadas em escrever a tarde inteira, possui diversas redações como dever de casa, porém ajuda enormemente na chegada à França, pois teremos que fazer relatórios logo em nosso primeiro mês de École Centrale.

Gramática –  de acordo com o que eu escutei dos meus amigos, é uma das mais cansativas. Nela, o objetivo é sair com todas as regras de gramática aprendidas (baseado em seu nível), logo existe um treino intenso de regras gramaticais durante os períodos da tarde.

Estudante – esse era um novo módulo criado pelo Cavilam, o objetivo dele era preparar estudantes internacionais que estavam vindo para a França começar seus estudos, uma boa parte dos meus amigos escolheram esse, porém a única diferença deste para a escrita é o vocabulário, que foca em setores mais especializados. Porém, de acordo com eles, são coisas que você aprende rapidamente durante as aulas iniciais, logo não existe necessidade de fazer o mesmo.

Pessoalmente, eu escolhi o workshop oral e não me arrependo nem um pouco da minha escolha, no início do Cavilam eu não conseguia nem ter uma conversação com a minha mère e ao fim de duas semanas de aula eu já estava conversando com a família inteira sobre assuntos cotidianos.

Diferenças Culturais

Acima de um curso de aprendizado de francês, Vichy foi para mim um primeiro contato com as mais diferentes culturas, pessoas dos quatro cantos do mundo se encontravam nessa pequena cidade no meio da França apenas para poder fazer um excelente curso de francês. Creio que foi nesse momento que eu comecei a criar gosto por conhecer e analisar novas culturas. Abaixo falarei um pouco sobre cada nacionalidade que eu cheguei a conhecer, porém, uma coisa que se deve ter em mente é que esse conceito que eu peguei dessas nacionalidades em Vichy, por vezes, pode estar errado, já que são poucas pessoas representando toda uma nacionalidade, logo o que estarei falando é apenas um conceito inicial sobre cada grupo, sem querer generalizar para todos.

Australiana – Foi minha primeira amiga em uma turma cheia de coreanos, chineses e japoneses. Era a que possuía o melhor francês entre todas as pessoas da sala, por isso foi razoavelmente mais fácil de conversar com ela. Uma característica que me surpreendeu muito nela era o fato de que ela tinha um pensamento semelhante aos dos meus avôs com relação ao poder dos homens sobre as mulheres, muito mais machista do que estamos acostumados nas faculdades brasileiras. Inclusive o motivo de ela estar fazendo o curso era porque o namorado dela considerava ideal que ela aprendesse francês, pois era uma língua bonita. De resto, era uma garota tímida e quieta, não falava muito sobre si mesma e nem sobre seu país.  

Russa – Conheci ela em uma das vezes que sai em Vichy, era da mesma sala que um amigo meu e estava imensamente interessada em conhecer melhor a cultura brasileira. Fizemos uma pequena social com 4 brasileiros e ela, falávamos uma mistura de francês, inglês e português. Pessoalmente acho a cultura russa muito interessante e minha amiga conseguiu atiçar ainda mais a minha curiosidade. Infelizmente ainda não consegui conhecer o país, e creio que vá ser muito difícil agora com o surto do Corona Vírus.  

Belga – Cheguei a falar com 5 belgas diferentes dentre minha estadia em Vichy, todos tinham uma coisa em comum, eram extremamente certinhos. Nunca esqueciam de fazer qualquer trabalho, levavam todos os tipos de exercício à sério e quase nunca víamos eles nas saídas noturnas. Enquanto conversávamos com eles nos passeios do Cavilam ou durante o almoço vimos que, mesmo sem saírem muito eles eram extremamente divertidos e interessantes.

Saudita – Conhecer alguém que possuía religião e cultura extremamente diferente da que eu estou acostumado é ao mesmo tempo interessante e desafiador. Com cerca de uns 40 anos, era extremamente religioso e fiel à sua cultura, gerando argumentações em torno de questões religiosas, políticas e feministas. Se levarmos em conta que, em seu país e religião, as mulheres não têm grande parte dos direitos que conhecemos no ocidente, podemos ter uma noção do nível que esses argumentos tomaram. Me lembro até hoje do momento em que ele falou que os homens podiam se casar com inúmeras mulheres, porém as mulheres só podem ter um homem. Nem preciso falar a revolta que isso causou nas pessoas da sala.

Coreanos e Chineses – Infelizmente terei que colocar os dois juntos, pois naquela época ainda não conseguia distinguir ambos. Sendo semelhantes fisicamente e na forma de participar em aula só tornava minha tarefa ainda mais difícil. Nunca cheguei a ver nenhum deles em sociais ou festas à noite, único contato que cheguei a ter com eles era em aula. Infelizmente, seja pela dificuldade com o francês, seja por cultura, eles não gostavam de desenvolver muito a conversa com outras pessoas, logo não aprendi muito com relação a eles. Única coisa em comum era a aplicação absurda que todos possuíam durante as aulas e nos deveres de casa.

Filipinos – Completamente inverso dos chineses e coreanos e em minha opinião os mais próximos do estilo carioca de ser.Geralmente vemos eles sempre sorrindo e alegres não importa onde estejam. Passam muito tempo com eles mesmos, porém em aula são bem participativos, principalmente nas discussões descontraídas, demonstrando um verdadeiro interesse em conhecer diversas outras culturas. Por vezes exageravam na falta de seriedade e eram repreendidos por isso, já que deixavam de fazer os deveres e não participavam das atividades mais sérias.

Toda essa interação com tantas pessoas diferentes desenvolveu dentro de mim um espirito de tentar aceitar e entender as diferenças, sem tentar impor minha opinião, desenvolvendo muito da minha escuta ativa. Estar de cabeça aberta é essencial para uma experiencia de intercambio e creio que essa estadia em Vichy me ajudou muito a isso.

RU / Bandejão

Como a cidade de Vichy não possui diversas opções de comida barata para seus estudantes, íamos quase sempre no restaurante universitário. Pagávamos 3 euros, aproximadamente 12 reais, e recebíamos um prato com legumes e algum tipo de carne. Sinceramente a qualidade do restaurante era muito insuficiente. Tínhamos também a possibilidade de pegar “side plates”, ou seja, aperitivos e/ou sobremesas, de acordo com o que desejávamos. Estes já eram um pouco melhores do que os pratos principais, porém não conseguiam acabar com a fome.

Restaurante Universitário em Vichy

Em uma comparação rápida com as universidades brasileiras, podemos ver que, independente do ponto de vista aplicado, os bandejões no brasil são melhores. Se procurarmos por preços baratos, temos uma qualidade de comida parelha ao de Vichy, porém estes não chegam a passar de 3 reais. Enquanto isso, se analisarmos do ponto de vista de qualidade, os locais que possuem a melhor qualidade, custam 9 reais, e possuem uma qualidade de comida muito acima deste de Vichy.

Vida Noturna

Esse ponto vai ser meio contraditório dependendo do tipo de grupo em que você se encaixou. A cidade em si não oferece muitas possibilidades, possui alguns bares-restaurantes, onde apreciamos um bom vinho e degustamos de alguma comida típica da região. Para mim, as saídas a noite giraram em torno de sair com outros brasileiros e ficar bebendo ao longo do rio que cruza a cidade. Além disso, também fazíamos sociais nas casas daqueles que moravam sozinhos e  participávamos das festas de sexta feira a noite organizadas pelo Cavilam.

Eventos

Durante nossa estadia em Vichy, temos bastante tempo à toa na cidade, porém esse tempo é prontamente ocupado pelo Cavilam através dos mais diversos eventos. Geralmente existe um padrão de atividades dentro de uma semana, o que significa que, independente da semana que você chegar, você terá a possibilidade de fazer praticamente as mesmas atividades que as pessoas que vieram antes e as que vem depois. Como era início da minha estadia aqui, ainda convertia tudo do euro para o real, achando tudo caro, o que fez com que eu evitasse de praticar algumas atividades.

Puy-de-Dôme – um dos melhores passeios que eu fiz durante minha estadia, mas também um dos mais cansativos. Vamos em um ônibus fretado com outros estudantes de Vichy para a base deste vulcão, lá começamos a subir uma exaustiva caminhada de mais de 100 andares (ou pelo menos foi isso que a aplicação no meu celular disse). Uma vez no topo do morro, temos um tempo para passear e tirar fotos antes de voltarmos. Para alguém que nunca tinha visto um vulcão e não conhecia muito de lugares naturais, essa primeira experiência de chegar ao topo do vulcão foi algo sensacional.  Aqueles que tiverem a possibilidade de voltar sozinhos depois, vale a pena pagar para fazer o passeio de asa-delta e ter uma das mais belas visões do local. Quem desejar fazer toda a subida a pé, recomendo levar uma bolsa com bastante água e um tênis extremamente confortável.

Vista do Puy de Dome de cima

Canoagem – escolhi fazer esse passeio pois nunca tinha feito canoagem na vida, então queria ter uma primeira experiência. Vale a pena fazer em um grande grupo, participando de corridas e tentando derrubar uns aos outros do barco, porém, aqueles que já fizeram esse esporte e não estão acompanhados de muitos amigos podem acabar tendo um passeio um tanto quanto monótono. Recomendo levar bastante água e roupas prontas para molhar e sujar de lama. Em baixa temporada de chuva é essencial ir de tênis, pois por diversas vezes o caiaque trava nas pedras e temos que sair para empurrar.

Rafting – apesar do preço mais caro, como nunca tinha feito, decidi pagar para ver, o local é perto do Cavilam e é um caminho feito artificialmente, porém, no dia começou a cair um temporal e devido ao perigo da alta correnteza não fomos permitidos de descer, sendo reembolsados depois. Creio que valha a pena fazer caso tenha dinheiro sobrando e nunca tenha feito, porém, para aqueles já experimentados ou sem muito dinheiro, existem outras atividades mais interessantes.

Clermont Ferrant – cidade próxima de Vichy, que é valido para aqueles que não conhecem muito da França e mal podem esperar para conhecer. Se não for agora, dificilmente você irá visitar essa pequena cidade ao longo de sua estadia na França.

Clermont Ferrant

Trilhas – diversos passeios pela natureza são disponíveis pelo Cavilam, para aqueles amantes de trilha, existem pelo menos umas 3 trilhas diferentes para fazer, passando desde florestas fechadas até lugares com vistas lindas do topo de montanhas.

Lagos – dentre algumas das trilhas, umas delas possui um lago, que era a cratera de um vulcão e que, caso esteja em um dia quente, possui uma água maravilhosa para entrar. Não se esqueçam de levar água e alguma coisa para lanchar, as coisas lá são bem caras.

Minha Experiência

Vichy acabou sendo um momento de contato inicial com a cultura francesa. Ajudou muito a aliviar o baque que eu teria ao ir direto para a faculdade. Durante esse tempo consegui ter contato com a cultura e comida francesa, tendo tempo para me adaptar a ela sem necessidade de levar o peso de uma faculdade junto.

Além disso consegui contato com pessoas das outras Centrales, criando a possibilidade de ter estadia para visitar outras cidades francesas e ampliar ainda mais meus conhecimentos da cultura francesa. Como todos estamos na mesma situação, de deixar amigos e família no Brasil, acaba ficando muito mais fácil de se enturmar, pois todos estamos dispostos a se abrir para uma rede de amigos.

Por vezes podemos pensar que apenas duas semanas é pouco tempo para criar uma amizade forte com essas pessoas, e em situações normais, isso é verdade, porém com o estado de espírito que todos estavam, criamos laços muito mais fortes do que geralmente é possível. Esses laços eram tão fortes que ao final de nossa estadia estávamos fazendo uma festa de despedida para cada pessoa que estava em nosso grupo de amigos.

Durante a minha festa de despedida, tive duas experiências que gostaria de compartilhar aqui, a primeira delas, foi o que iniciou a festa, que foi a feira de cultura, na qual conhecemos todas as culturas presentes no Cavilam e tentamos apresentar nossa cultura para os outros, foi, definitivamente, a feira mais animada que eu já fui. Após isso ficamos ao longo do rio bebendo e conversando, tentando ao máximo criar um bom ambiente para todos.

Ao final disso, uma pessoa da minha mesma faculdade no Brasil estava passando mal, então precisávamos levar ela para a casa, porém ela não conseguia nem andar e a casa dela era a mais de 15 minutos andando de onde estávamos. Vendo essa cena, um carro de franceses com aproximadamente a minha idade parou para poder nos ajudar, levaram eu e a garota para a casa dela, me esperaram deixar ela na cama e me levaram de volta para o local onde todos estavam, sem pedir nada em troca, inclusive deixando dois amigos na rua para liberar espaço no carro. Foi realmente uma experiência única e que mudou de vez a minha imagem dos franceses.

No geral, minha experiência no Cavilam foi muito boa e me forneceu muita experiência para conseguir seguir em frente com todas as coisas que eu eventualmente tive na Centrale Lille. Recomendaria para todos que tem disponibilidade de fazer.

Cruzando o Atlântico

Turbilhão de emoções

Depois de conseguir terminar todos os processos infinitos de burocracia relacionados à minha vinda na França, finalmente tive tempo para me preparar psicologicamente para a vinda. Preparei despedidas com os mais diferentes tipos de grupos, desde aqueles amigos de infância até os mais novos relacionados com os projetos que eu participava e fiquei durante uma semana aproveitando as pessoas que eu não veria pelos próximos dois anos.

Se despedir de uma vida de mais de 18 anos e se preparar para uma nova, na qual você não sabe o que esperar, é um processo extremamente estranho, para não dizer engraçado. Emoções que nunca surgiram antes, começam a aflorar e você simplesmente não sabe o que fazer com isso e as vezes nem ao menos explicar. Emoções que fazem você ignorar rancor ou vergonha referentes à diversas pessoas e que fazem você querer elas de volta na sua vida. Outras que fazem você se reaproximar de seus pais e de tentar manter o contato com o maior número de pessoas importantes na sua vida, mesmo que as vezes, essas outras pessoas não percebam isso.

Esse processo de emoções é diferente para cada pessoa, porém o importante é tentar entender o que as suas emoções estão dizendo e não tentar suprimi-las. No meu caso, eu passei um bom tempo antes de vir tentando esconder e ignorar elas, e apenas comecei a trabalhar com elas depois de receber ajuda de um amigo de trabalho bem mais velho que eu, que me orientou pelo caminho certo. Obrigado Lohan.

Chegada na Europa

“Parisiense é tudo mal-educado”

“Frances fede”

“Culinária Francesa é magnifica”

Todas essas frases eu escutei até não aguentar mais antes de minha chegada. Minha recomendação é não chegar aqui com nenhum desses preconceitos e estar com a mente aberta para novas culturas, esse mindset te permite ganhar uma gama de experiências muito maior.  

Minha chegada foi em Paris, no Charles de Gaulle e tinha como objetivo chegar até a estação de trem de Bercy, na qual eu pegaria meu trem para Vichy, minha primeira parada nessa experiência de dois anos. Como nunca tinha viajado sozinho antes, devo admitir que estava um pouco perdido. Mesmo me preparando e anotando o passo a passo do que deveria fazer desde que descesse do avião, se encontrar acabou sendo mais difícil do que achava e acabei pedindo indicações para diversas pessoas ao longo do caminho. Incrivelmente, todos foram extremamente simpáticos.

Ao chegar na linha de metro, recebi ajuda de um senhor que me ajudou a carregar as malas pelas escadas, já que o suporte do subterrâneo de paris para pessoas com malas é péssimo (e pior ainda para deficientes!). Depois ainda recebi ajuda de uma senhora para comprar minha passagem, me explicando as diferenças de preço e onde embarcar. Essa experiência mudou momentaneamente minha visão sobre Parisienses e o fato deles serem, de acordo com o preconceito, mal-educados. Infelizmente, em minhas futuras idas para a cidade percebi que tive a sorte de estar em um domingo, dia que a cidade não é movimentada. Chegue em Paris em um dia de semana e você se encontrará em um cenário totalmente diferente, com muita correria e cada um por si.

O resto da viagem até Vichy foi extremamente tranquilo, sala de espera da estação de trem extremamente confortável, tomadas para celular e até mesmo Wi-Fi público, algo que, para nós brasileiros que nunca viajamos para fora, existiria apenas em uma Utopia. Como dentro do trem eu acabei conseguindo ir de primeira classe (é praticamente o mesmo preço), fiquei extremamente impressionado com o luxo e conforto que tinha. Achava que o que eu estava vivendo ali era coisa de filme, nunca tinha encontrado nada parecido no Brasil. De mais, ao chegar em Vichy fui recebido na estação pela pessoa que ia me acolher em minhas duas semanas e de lá saímos para conhecer a cidade.

Um pouco de background

Intercambio é o famoso deus me livre mas quem me dera.

— Inter cambistas da Centrale Lille

Tudo teve seu início com a decisão, incentivado por amigos e namorada, de concorrer ao processo de Duplo Diploma na França. Era o meio do período letivo de minha faculdade, a PUC-Rio, quando minha namorada chegou a mim com a ideia de querer concorrer a esse processo e plantou a semente na minha cabeça de também faze-lo. De início era mais um tiro no escuro, não tinha muita motivação para ir para um país da Europa e muito menos para um país do qual não sabia nada da cultura ou da língua, porém com a aprovação no processo, a mudança de diversas coisas na minha vida no Brasil e, principalmente, a aprovação no sistemas de bolsa da Brafitec, eu acabei decidindo dar uma chance para essa nova experiência, que ia me mudar de uma forma inimaginável.  

Antes de vir para a França eu participava de uma equipe de robótica dentro de minha faculdade chamada RioBotz, conhecida mundialmente dentro do setor de robôs de combates. Nela eu era coordenador de três setores diferentes, robôs autônomos, comunicação e gestão. Além disso eu tinha participado de alguns projetos paralelos voltados para a automatização de processos, como uma mesa que se auto corrige para não deixar nada cair dela e na automatização de parte de um jogo de tabuleiro.  Por fim, tinha feito meu MBA-JR, um curso para jovens graduandos que apresenta o básico das áreas de negócios e administração de empresas e que me animou imensamente para trabalhar com áreas como logística e recursos humanos.

Todos os textos daqui em diante são relacionados com as minhas experiências dentro do meu período de intercâmbio, que acabaram por me transformar na pessoa que eu sou atualmente e que estão me deixando mais perto de ser o profissional que eu desejo ser. Esse projeto é o meu “défi personnel”, algo que explicarei ao longo dos textos a seguir, cujo o objetivo é conseguir aumentar minhas habilidades artísticas, tanto em questão de edição de vídeo, fotografia e produção de texto. 

Quem sou eu?

Prazer a você interessado em conhecer um pouco mais sobre a vida de um estudante em intercambio! Caso esteja interessado apenas no objetivo do blog, recomendo ir para o próximo post, pois esse possuirá um foco pessoal, contando minha trajetória até chegar no Duplo Diploma na França e explicitando diversas de minhas características pessoais. Comecemos do inicio.

Nasci no Rio de Janeiro, em Laranjeiras e moro na Barra da Tijuca desde que me conheço por gente. Quando menor, estudei no Colégio Santo Agostinho, na mesma região em que morava, desde sempre me mostrei bom para a área de exatas e ruim em português e literatura, de forma que esse blog sirva para melhorar esses pontos fracos. Diferente da maioria das pessoas boas em exatas, eu gostava muito das aulas de humanas, em especial de geografia politica e historia. Felizmente, como era apaixonado por robótica e adorava ver os videos de combate de robôs desde pequeno, a minha escolha de curso não foi muito difícil.

Tendo um objetivo claro mesmo antes do fim da época do colégio, comecei a procurar as melhores faculdades no setor de mecatrônica. Como eu ainda era muito imaturo, não via a possibilidade de estudar em locais muito longe das minhas famílias, seja por parte da minha mãe, seja pela do meu pai. Com isso passei meu segundo e terceiro ano focado no estudo para a UFRJ, UFU e PUC-Rio, ou seja, foquei nas provas do ENEM e nas especificas da PUC-Rio.

Apos o fim do terceiro ano, tendo passado para as 3 faculdades que eu desejava, já havia cortado completamente a opção de ir para a UFU, pois minha família era fortemente contra eu ir morar apenas com a minha avo, por medo de eu não receber a melhor educação possível. Com isso faltava apenas escolher entre a melhor particular e a melhor publica do Rio. O que mais pesou nessa escolha para mim foi o fato de eu entrar na turma especial da PUC-Rio e a opinião de pessoas próximas de mim de cada faculdade. Olhando para trás atualmente, posso dizer que não me arrependo nem um pouco dessa escolha, muito pelo contrario, vendo a evolução dos meus amigos na UFRJ e aqueles da PUC, vejo que a minha faculdade fornece muito mais apoio que a publica.

Uma vez dentro da PUC passei meus dois primeiros períodos muito preocupado com notas, até eu perceber, no inicio do terceiro período, que dentro de uma faculdade, a nota é uma das coisas que menos importa. A partir do momento em que consegui perceber isso, comecei a procurar diversas atividades externas às aulas padrões da faculdade. Comecei fazendo o processo seletivo da RioBotz, a equipe de robótica mais famosa do Brasil, entrando para a área de autônomos.

Alem disso, consegui uma bolsa de estudos para fazer um MBA-Jr no IEG e fui chamado para dois projetos da área eletrônica, um relacionado com desenvolvimento de jogo de tabuleiro e outro de uma mesa autônoma. Antes de vir para a França ainda virei coordenador do setor autônomo da equipe de robótica durante 8 meses e do setor de comunicação e gestão durante 5 meses.

Agora que vocês conhecem meu desenvolvimento profissional, passemos um pouco para o lado pessoal. Acho importante tocar nesse assunto pois a experiencia de vocês no intercambio depende muito da pessoa que você é, assim, se você for uma pessoa extremamente diferente, pode ser que as experiencias que eu tive sejam completamente diferentes das que você terá.

Acaba sendo um pouco difícil me encaixar em um esteriótipo para que você possa saber se possui alguma identificação ou não, pois eu sou uma pessoa um tanto quanto bizarra em gostos. Gosto de vídeo games, animes, mangas e séries, poderia dizer que sou nerd, porém não sou aqueles fanáticos que só sabem falar disso e passo longe do esteriótipo, já que sou uma pessoa que gosta bastante de festa e gosta dos mais diferentes esportes, incluindo academia, calistenia, yoga, vôlei e futebol.

Nunca fui uma pessoa muito interessada em viagens ou em conhecer outras culturas, o que mudou completamente com a minha vinda para a Europa. Sempre preferi eventos mais exclusivos entre amigos e colegas e nunca gostei tanto da ideia de ir para boates, porém, a partir do momento em que estou nelas posso dizer que acabo aproveitando bem. Meus passatempos favoritos na França são exercícios físicos, vídeo games e séries e, quando estava no Brasil, amava passar meu tempo na praia, especialmente jogando vôlei e altinha. Gosto muito de assistir futebol e futebol americano, porém não sou nem um pouco fanático, de forma que não perco meu sono quando meu time ganha ou perde.

No geral sou uma pessoa extrovertida, que gosta de estar em contato com outras pessoas quase o tempo inteiro, pois odeio estar sozinho. Aqui na França essa situação mudou um pouco, já que a solidão é muito maior do que no Brasil, com isso aprendemos a viver sozinhos e a passar tempo com si proprio. Gosto muito mais de trabalhar com fatos do que com sentimentos profundos, sendo muito organizado com as minhas tarefas e atento aos mais diferentes detalhes.

Costumo ser muito politico, mas não politizado, pessoalmente odeio conversar sobre politica e não gosto dessa mania que a maioria tem de denominar as pessoas apenas de esquerda e direita. Gosto muito de tomar a liderança nas atividades e até mesmo nos grupos de amigos, sempre tentando ser amigo de todo mundo, conhecendo ou não as pessoas. Aqui na frança aprendi a trabalhar em posições de subordinação com lideres bons e ruins e desenvolvi diversas habilidades em relações intrapessoais e de autoconhecimento.

Sempre fui uma pessoa que não liga muito para a imagem externa das coisas, assim acabo valorizando mais o conforto e a praticidade ao design ou nome, por vezes isso gera um certo preconceito por parte das pessoas ao verem as roupas e acessórios que uso. Gosto muito de coisas funcionais e me sinto desconfortável em conviver com um grupo que foca nas coisas fúteis.

Antes de sair do meu país nunca tinha morado sozinho, cozinhado, lavado a casa ou as roupas, gerando diversas dificuldades do ponto de vista organizacional quando eu cheguei aqui. Meu francês na chegada era de nível A2 para B1 e o inglês era de C1 para C2, permitindo uma comunicação razoável desde o começo.

Acredito que posso dizer que, quer você tenha se reconhecido ou não nas coisas que eu falei, a vinda aqui para a França é uma passagem apenas de ida, pois a pessoa que estará na volta para o Brasil sera alguém totalmente diferente daquela que foi. Você baterá de frente com seus pontos mais fracos, descobrirá problemas que antes não estavam latentes, vai aprender a odiar e a amar novas pessoas, as vezes passando pelas duas fases com uma unica pessoa. Desenvolverá diversas novas capacidades e perderá algumas outras que não eram tao uteis. Esteja preparado para uma das fases mais complicadas da sua vida até o momento, intercambio é difícil, porém, não chega aos pés da dificuldade que o duplo diploma representa.

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