Logo ao fim do S5, primeiro período da Centrale, temos o início do mês de estágio. Para a maioria dos franceses, esse mês se da em alguma empresa que conseguiram graças à network já estabelecido aqui na França. Para os internacionais, com exceção de alguns mais sortudos que conseguiram estágios em empresas grandes, a maioria acaba ficando em laboratório ou em algo que envolva apenas trabalho braçal.
Minha experiencia se passou em um laboratório de controle de um sistema autônomo de trens em miniatura, no qual tínhamos uma miniatura de uma linha ferroviária simples e um trem 100% autônomo com a eletrônica já pronta. Quando cheguei no local de estagio, passei o primeiro dia inteiro conhecendo como funcionava as coisas e lendo o livro das regras de trânsito de trens. Neste dia eu cheguei a conhecer o responsável pela eletrônica do local e também o professor responsável pelo projeto.
No dia seguinte eu recebi o objetivo de entender a fundo a programação do trem e de tentar otimizar, deixando ela mais clara para pessoas externas, assim, passei meu primeiro dia inteiro trabalhando em torno da mesma, tentando entender coisas que nunca tinha visto antes na vida. Ao final do dia, já tinha compreendido metade dos programas e feito alguns comentários separados para levar ao professor.
Durante meu terceiro dia de trabalho eu conheci o responsável da programação, tendo sido o primeiro dia que ele foi ao laboratório na semana. Assim que ele chegou ao local e viu que eu estava olhando o programa, ele já me questionou do que se tratava aquilo. Ele nem sabia que eu estava estagiando lá desde o início da semana. Após eu explicar para ele o que aconteceu, ele mandou eu não modificar nada, saiu da sala e não voltou mais até o almoço.
Quando voltei da minha hora de almoço eu fui chamado para conversar com o diretor de programação para definir novos objetivos para mim, já que ele não queria que eu mexesse em nada no programa. Sai dessa reunião com uma lista de 8 tópicos para estudar. Apenas estudar. Para depois, se eu acabasse a tempo do fim do estágio, poder mexer no programa. Ao final da segunda semana havia finalizado todos os tópicos que ele passou e estava pronto para mexer no programa, porém, como precisava da aprovação dele para começar a mexer, acabei tendo que esperar ele aparecer no laboratório para poder lhe mostrar minha evolução.
Na terça feira da terceira semana eu encontrei com ele e avisei que já havia acabado, e perguntei se poderia ir para os códigos agora. Depois de uma serie de perguntas para ver se eu havia entendido bem o conteúdo que ele pediu, ele me passou mais 5 tópicos, que, em minha opinião, não eram nem um pouco necessários para avançar no programa. Frustrado, voltei para casa cedo naquele dia e mostrei esses tópicos para um amigo meu com técnico em computação, para saber o quão valido era aquela cobrança. Infelizmente, a resposta que eu recebi era de que nem fazia sentido ele me cobrar aquilo, já que não usava no tipo de programa que eu iria trabalhar.
Como faltava apenas mais uma semana e meia para acabar o estágio, eu desanimei completamente, vendo que não conseguiria trabalhar e passaria mais tempo apenas estudando por mim mesmo. Passei o resto do tempo chegando mais tarde e saindo mais cedo do laboratório, já que não havia controle de horário e passava o tempo que estava lá pretendendo que estava fazendo algo relacionado ao estágio, enquanto que o meu chefe pretendia que me cobrava.
Em resumo, meu estagio pouco me ensinou, tanto em questão de trabalho em equipe, quanto em questão de conhecimento técnico. De início, pensei que poderia ter sido um caso isolado entre os brasileiros, porém, conversando com eles, descobri que a maioria ficou procrastinando e que não recebia tarefas muito interessantes, exceção eram aqueles que realmente trabalharam e aprenderam. Uma observação importante é que isto foi para o estágio obrigatório de um mês, o que não quer dizer que o estagio de 6 meses tenha qualquer semelhança, muito pelo contrário, de acordo com as experiencias dos veteranos o mais longo é uma experiencia enriquecedora e animadora.
Para entrar na faculdade aqui na França as pessoas passam antes por uma época chamada preparatoire, que é muito semelhante ao nosso período pré-vestibular, porém, em minha opinião, bem mais complicado. Esse período abrange matérias próximas do ciclo básico de engenharia, focando em muito mais teoria do que o que vemos no Brasil. Com o fim do prepa, os franceses são aceitos nas Écoles de acordo com as notas obtidas. Aqueles que passarem para a Centrale Lille se encontrarão no S5, o primeiro período da École, considerado pela grande maioria como o mais difícil de todos.
Duas semanas antes da chegada dos franceses, a École promove um momento de integração dos internacionais no qual são resolvidas as tarefas burocráticas iniciais e são dadas certas aulas de nivelamento. Na sexta feira da semana anterior ao início das aulas, os franceses são convidados a vir para a École para um percurso de integração, no qual eles são apresentados aos eventos de base da Centrale e a diversas associações presentes no mesmo. Nesse percurso o padrinho de cada estudante deve acompanhar ele e aconselhar sobre cada coisa a fazer.
Nas duas semanas seguintes temos o Start&Block que engloba diversas palestras e tarefas em equipe, esse momento serve como integração entre os estudantes, girando-os em grupos, permitindo que se conheçam e desenvolvam as habilidades softs. Os trabalhos em si não são nada complicados em questões técnicas, é necessário apenas criatividade e trabalho em equipe. Para os internacionais, essa semana serve também para percebermos a dificuldade que temos em mostrar nossa opinião em uma língua diferente.
Passado esse período de integração começa um outro momento na faculdade, esse de duração de um mês e meio chamado Start and Go. Nesse momento os centralianos são divididos em quatro grupos diferentes, em que cada um vai trabalhar com uma matéria diferente, temos aqueles que vão trabalhar com Data Science, outros com controle usando Arduino e Raspberry Pie, um terceiro com um robô cujo objetivo muda a cada ano e, por fim, aqueles vão mexer com a parte de desenvolvimento sustentável.
Cada matéria possui diversas aulas para ensinar como fazer as coisas na prática, seguida de momentos com trabalhos em autonomia para poder desenvolver o projeto final. Para os franceses, esse período funciona como uma forma de aprender que mesmo saindo de um preparatório muito bom, eles ainda têm muita coisa que não sabem e que precisam aprender. Já para os internacionais, principalmente para aqueles que já fizeram controle ou programação no Brasil é basicamente um mês e meio de esforço continuo para interagir em outra língua e conseguir apresentar as ideias na mesma.
Além dessa matéria gigantesca por um mês e meio, temos ainda: Introdução a analise matemática, o início do #projeto e duas línguas, inglês e uma à escolha. Esse #projeto se trata de um projeto de um ano e meio que é formado em parceria com empresas e que tem professores que acompanham o avanço dele. A ideia é extremamente interessante, mas na prática não funciona. Para os estudantes internacionais, a outra língua é obrigatoriamente o Frances, independentemente do nível do aluno. Esse período de aulas é interrompido por uma semana de férias, o Toussaint, que em português quer dizer “todos os santos” e que acontece quase sempre uma semana antes da entrega final do projeto do Start and Go.
Passando a entrega final do projeto, entramos no último período do S5, ou como chamamos aqui, o S5b. Nele temos um cenário mais parecido com as faculdades do Brasil, com diversas matérias ao mesmo tempo, algumas com provas e outras com trabalhos. Esse período é o mais complicado da Centrale, pois junta a ainda existente dificuldade de ter amigos franceses, a grande quantidade de matérias trabalhosas e a chegada do inverno pesado. Com esse combo, acaba que muitas pessoas ficam extremamente mal acabando se afastando de todos e ficando mais em casa.
Felizmente, durante o S5b temos as férias de natal e ano novo, que ajuda um pouco a manter a sanidade mental durante esse momento complicado. Nessas férias temos as pessoas que acabam passando o natal em família, seja no Brasil, seja na Europa e temos também aqueles que acabam passando o natal em conjunto com os outros brasileiros na residência.
Voltando das férias temos as provas e trabalhos finais de todas as matérias em apenas duas semanas. É o momento em que os brasileiros se juntam para se ajudar e começam a descobrir aqueles que tem espirito de equipe e se preocupam com os outros e aqueles que só querem saber de suas próprias notas e pouco se preocupam em dar uma ajuda a qualquer um. Essas duas semanas provavelmente serão as mais infernais de todo o momento que você vai passar na Centrale, estresse e ansiedade sobem num nível extremo e parece que tudo vai dar errado, até que no fim tudo acaba dando certo (geralmente).
Acabando todas as provas e trabalhos entramos num período de um mês de estagio em que, aqueles que conseguiram estagio em empresas distantes se deslocam para o local dela e ficam lá por um mês isolados do resto do grupo de brasileiros, podendo fazer apenas bate e volta nos fins de semanas. Enquanto isso, aqueles que conseguiram estágios em empresas próximas ficam na residência e conseguem ter uma vida extremamente tranquila durante um mês inteiro, tendo que trabalhar durante a manhã e a tarde e tendo a noite e os fins de semanas completamente livres. O ritmo inteiro desse mês representa uma enorme diferença daquele vivido no S5 e dá uma relaxada pro semestre que vem.
Acabando o estagio de um mês, nos temos uma semana de férias, para poder ter o descanso entre os semestres, nessa semana, aqueles que listam BDA, BDE ou BDS tem a tendência de viajar com as pessoas de sua chapa para poder haver uma maior integração entre os mesmos e conseguir trabalhar nos planos para a eleição.
A partir da volta das férias, começa na Centrale o S6, nele nós temos uma matéria de cada área de especialidade centraliana e podemos escolher uma extra da área que quisermos, com exceção do setor empresarial, que devemos pegar apenas uma, sendo obrigatoriamente uma matéria de autoconhecimento. No total ficamos com 6 matérias para aproximadamente 4 meses, de março até junho, das quais três são para os primeiros dois meses e as outras três são para os dois últimos meses.
Pessoalmente, eu escolhi as matérias que eu achava interessante e que não possuíam provas, apenas trabalhos constantes ou um grande trabalho final, já que considero que aprendo melhor dessa forma. Aqueles que preferem o estilo de cobrança de provas e não gostam tanto assim da área pratica, fiquem tranquilos, pois também não estão em falta na Centrale. No geral o S6 é bem mais tranquilo que o S5, permitindo tempo para aproveitar as associações e para avançar no projeto de um ano e meio.
Com o fim do S6, temos as férias de verão, com praticamente dois meses inteiros de férias para aqueles que passaram direto. As opções aqui são vastas, existem aqueles que voltaram para o Brasil pois estavam com saudades da família, aqueles que passaram a maior parte do tempo na residência, outros que fizeram cursos de línguas ou de especialização, alguns poucos que viajaram o tempo inteiro e também aqueles que foram procurar estagio de dois meses.
Com o fim das férias, entramos agora no S7, porém, antes disso, existem as duas semanas de integração dos internacionais, na qual os veteranos internacionais são os responsáveis por ajudar na adaptação dos calouros que estão chegando agora. Quando essas duas semanas terminam, começamos verdadeiramente o terceiro período centraliano.
O S7 é o período com menos aula da Centrale, ele tem 8 horas livres dedicadas para o projeto, 4 horas livres para as associações e ainda diversos momentos sem aulas no geral. Dependendo da matéria você pode ter apenas 8 horas semanais ou então no máximo umas 16 horas, o que é uma diferença gigantesca se comparado com as mais de 20 horas semanais do S5. Nesse período temos apenas 2 matérias para os 6 meses de aula, porém são matérias completas, que englobam eletrônica, mecânica, marketing, gestão, materiais e computação.
Durante o mês de setembro até o meio de novembro temos uma das matérias, com o feriado do Toussaint no meio. Após isso temos a outra até o meio de fevereiro, tendo as férias de natal como descanso. Além dessas duas matérias, nós temos também as provas de nivelamento do nível de língua de inglês e francês (no meu ano não houve a de francês, porém no anterior ao meu existia), além da entrega final do projeto, uma das coisas que causa mais estresse no S7 inteiro. Por fim, temos também o inicio do desafio pessoal, um projeto da Centrale no qual você cria um desafio para você mesmo fazer e, junto com o tutor, avançam, durante um ano, em direção ao objetivo.
Com o fim do S7 e após as férias de fevereiro, temos o início do S8. O sistema do S8 é muito semelhante ao do S6, nós teremos 6 matérias para 4 meses de aula, a diferença vem nas matérias que podemos escolher, já que não existe um limite de uma matéria por área de especialidade, apenas existe a obrigação de pegar uma, e apenas uma, matéria empresarial, ou seja é possível pegar 5 das 6 matérias sendo de elétrica e uma voltada para o âmbito empresarial. Junto com essas matérias temos também o fim do desafio pessoal e a procura por estagio.
Após o S8, os estrangeiros têm que ter cumprido os créditos oferecidos pela Centrale e cerca de 3 meses de estágio. Aqueles que, nesses dois anos, não tiveram os 3 meses necessários de estágio em empresa, precisam, com exceção de alguns casos específicos, fazer um estágio para cumprir esses horários, o que gera, geralmente, uma estadia de mais 6 meses na Europa por parte dos alunos internacionais, totalizando dois anos e meio praticamente. Devido ao Covid, foi possível para alguns estudantes voltarem para seus países, já que a centrale flexibilizou suas regras.
Atualmente, com toda a experiencia que eu tive na Centrale acredito que eu já tenha conseguido distinguir os campos de aprendizado fornecidos por ela e aqueles fornecidos pelas faculdades do Brasil, assim, aquela conversa que existe no Brasil, que é uma faculdade generalista, que tem como objetivo fornecer conhecimento de todas as matérias para poder obter uma noção geral dos mais diferentes setores é apenas meia verdade.
O aluno centraliano tem como característica uma maior noção da dificuldade e necessidade de tempo de cada setor, então é aquela pessoa ideal para poder controlar um projeto multidisciplinar, porém ele não permite ao mesmo de se especializar em algum setor. É raríssimo ver franceses que sabem muito de um setor específico, até por isso temos aulas com menos aprofundamento nas matérias e por diversas vezes matérias com a mesma introdução.
Diversas matérias que cheguei a fazer aqui não possuem provas ou qualquer forma de controle escrito, sendo a maior parte das avaliações feitas por trabalho em grupo ou em dupla. Abaixo colocarei essas matérias explicando um pouco sobre cada uma delas e como foi o desenrolar das mesmas.
S5
Start and Go Data Science – Primeira matéria que pegamos na Centrale, o objetivo dela era ensinar um pouco de analise de dados e machine learning. Tivemos cerca de duas aulas de teoria de modelos probabilísticos, o que da umas 4 horas de matéria e depois seguimos para a área prática, nela começamos a programar em python utilizando a base de dados fornecida pelos professores. Infelizmente, com uma base teórica fraca e programas prontos fornecido pelo curso, acabávamos fazendo um grande copiar e colar seguido de análises fracas baseadas no nosso pouco conhecimento técnico.
Ao final da mesma fizemos também uma analise textual, pegando a quantidade de palavras que aparecem no texto e fazendo a analise do mesmo baseado nisso. Aparentemente parece extremamente interessante, porém, mais uma vez devido à falta de bases teóricas, não conseguimos fazer uma boa análise.
Em resumo essa matéria serviu para interagir com os franceses e melhorar o nível linguístico dos internacionais, porém de pouco adiantou em termos de conhecimento. Recebemos apenas noções básicas da matéria, o que não nos permite fazer qualquer coisa pratica relacionada. Ao máximo sabemos da dificuldade que um expert nessa área teria para realizar alguma demanda.
Entendam que essa analise é feita por uma pessoa que gosta de elétrica, programação e gestão, logo ela pode ser um tanto quando tendenciosa.
Introdução à Analise – A matéria mais teórica que encontrei na Centrale, possui diversos conceitos complicadíssimos da analise matemática divididos em 4 capítulos. As aulas são separadas em aulas teóricas, em anfiteatros gigantescos e em aulas de resolução de exercícios, onde aprendemos a maior parte da matéria. Como não sou muito fã de uma base matemática forte, gostando mais das aplicações potenciais, não me encaixei direito nessa matéria. É a única matéria da centrale que eu não validei.
Sociologia das Organizações – Uma matéria com potencial para ser importante, porém que é extremamente mal aplicada, na PUC-Rio ela seria praticamente a mesma coisa que administração para engenheiros, uma matéria que, se levada a sério, ensina o básico de como administrar uma equipe ou empresa, porém, essa matéria na Centrale acaba quase não tendo aulas sérias, com trabalhos ridículos sem qualquer objetivo de aprendizado. Realmente não parece que havia qualquer planejamento.
Complexité – Essa matéria é um tanto quanto complicada de explicar já que não existe algo muito parecido no Brasil, ela consiste basicamente em analisar um sistema complexo e conseguir compreender suas exigências utilizando um software específico para isso, chamado Cameo Systems Modeler. Realmente aprendemos algo com ela, porém não vejo muita utilidade.
Mecânica dos meios contínuos – Um equivalente à matéria de mecânica dos sólidos no Brasil, é dada em apenas 3 meses com uma única prova no final da matéria. Por possuir uma quantidade enorme de matéria, acaba que fica apertado para entender tudo em apenas 3 meses, por isso é essencial ficar acompanhando e estudando à medida que a matéria é dada. Aqueles com facilidade em mecânica provavelmente aprenderam essa matéria, meu caso foi decorar os exercícios e passar na prova.
Algoritmo – Semelhante à introdução a programação do Brasil, possui apenas 5 aulas de 4 horas cada e possui mais matéria que as duas matérias de introdução a programação da minha faculdade. Assim, da pra imaginar que é uma matéria complicada, especialmente para aqueles que não possuem uma base de programação. A avaliação dela é composta de relatórios dados ao final de cada aula, mini testes tanto em casa quanto no início de cada aula e um exame final, com parte teórica, questões de múltipla escolha e a parte prática.
Tratamento de Sinais – Essa matéria engloba series e transformadas de Fourier junto com filtragem e tratamento de um sinal. As notas são divididas em testes em aula junto com relatórios entregues ao fim de duas aulas práticas. Além disso existe um trabalho final que vale uma boa parte da nota. Mais uma vez, essa matéria da, em apenas dois meses, algo que duas matérias na minha faculdade dão.
Física Moderna – Uma das matérias mais simples da Centrale para se passar, porém uma das que tem a base teórica mais complicada, sinceramente, entendi muito pouco da parte matemática dessa matéria, porem consegui passar através dos pontos dados em exercícios feito em casa, testes online e um projeto em dupla. Além desses, ela ainda possui duas provas.
S6
Mecânica dos meios contínuos: Simulação numérica – Seguindo a parte teórica da matéria de MMC e aprofundando um pouco, a matéria tem como objetivo ensinar a fazer simulações de elementos finitos e permitir uma analise aprofundada da mesma. A matéria tem um teste no início com conteúdo da revisão da matéria de MMC, que acredito nem precisar dizer que não me dei bem. Depois é baseada em relatórios entregues ao final de cada aula prática de simulação. Essa foi uma das matérias que mais aprendi. Desenvolvi habilidades no CATIA, além de desenvolver certas noções de mecânica que não possuía antes.
Full Metal Modulo – Matéria relacionada à parte de materiais. A sala é separada em quatro grupos, cada um com um objetivo específico que vem a ser realizado ao longo de diversas aulas práticas de 4 horas de duração. Essa matéria é bastante ampla em questão de conhecimento, e é possível passar nela sem fazer um grande esforço, porém, para aqueles que gostam da área de materiais é interessante pela enorme quantidade de coisas práticas que podemos fazer. Aqueles que não gostam, serve para dar um gostinho de como funciona as coisas, sem exigir muito esforço nem entendimento da pessoa.
Modelização e Comandos Aplicados à Robótica – Uma das matérias mais bem elaboradas que tive no S6, ela possui uma didática de ensino muito boa, tendo uma boa quantidade de aula teórica e prática. Basicamente começa nos métodos de controle mais básicos indo até alguns mais complexos, ela não permite você a terminar expert no assunto, porém ajuda a dar uma boa noção inicial dele. A forma de avaliação é feita através de testes e de um trabalho final que envolve o controle de velocidade de um robô.
Estimação em Tempo Real para Engenheiros – A pior matéria que eu cheguei a fazer na Centrale, com análise inclusa. Ela tinha exatamente a mesma temática da matéria acima, porém era com foco matemático e não prático. Apesar de ela ter o objetivo de ensinar um pouco sobre a parte de modelização e estimação acaba que foca demais na parte matemática e não aprendemos quase nada com relação a prática.
Se conheça você mesmo – Digamos que seja a matéria mais inútil de toda a Centrale, ela envolve um pouco de material de autoconhecimento e também uma boa parte de como desenvolver um projeto profissional, porém, aqueles que vieram do Brasil e já fizeram dois anos de faculdade já tem uma boa noção do que querem profissionalmente, então acaba sendo um pouco inútil.
Sistemas de Informação – uma matéria muito bem dada, fácil de se passar e com conteúdo interessante. Ela tem um inicio que é basicamente a continuação de Complexité seguido de programação em SQL. Todas as aulas são importantes e valem nota.
S7
Biomedica – O conceito dessa matéria é realmente interessante, porém falta muitos conceitos básicos para possibilitar um bom desenvolvimento dos alunos. Ela tem como objetivo ensinar todos os métodos principais que envolvem a tecnologia na medicina e tem como avaliação uma aula prática de cada método e um projeto final. O problema é a falta de ligação entre os métodos e as aulas, assim parece que não temos uma continuidade, quando finalmente estamos começando a entender alguma coisa, aparece algo novo. Além disso, eles chamam muitas pessoas de fora que não possuem qualquer método para dar aula. Essas pessoas são as responsáveis por apresentar as empresas delas e como elas usam esses métodos nas empresas.
Retro-Engenharia – Essa matéria é uma das que mais me enganou. O conceito dela é sensacional: “vamos pegar um produto que existe no mercado, entender como foi feita a montagem dele, desmontando e entendendo o processo. Após isso, vamos melhorar esse produto, criando um diferencial competitivo para ele.” Infelizmente, tudo isso ficou apenas no papel. Os produtos fornecidos pelos professores são ridículos e não permitem quase nenhuma abrangência de modificação, meu grupo recebeu um mixer, o mais barato do mercado inclusive. Qualquer melhoria que pensássemos confrontava com o posicionamento da marca de ser o mais barato. No final, a maior parte dos grupos não conseguiu criar nada muito interessante, já que a maioria dos produtos eram do mesmo estilo que o meu. Além disso tínhamos aulas para nos ajudar com o desenvolvimento, uma leitura de slides de materiais, o ridiculamente básico de eletrônica de sensores e de potencia e aprendemos sobre bombas hidráulicas. (tipo sério, porque eu vou aprender sobre bombas hidráulicas para desenvolver um batedor)
S8
SmartGrid – Ela possui a mesma matéria, professor e estilo de aula que EER (falarei logo abaixo). A única diferença é que, no meio do período, as aulas param, e começamos a ter tempo livre para fazer o projeto final. Em grupo de 4 ou 5 pessoas temos que desenvolver uma simulação de uma rede de transmissão do 0, sem qualquer base teórica dada pelos professores com exceção de circuitos monofásico e trifásicos e transformadores. Cada grupo tem alguma especificidade na rede, meu grupo, por exemplo, trabalhou com elementos acumuladores de energia. O maior problema dessa matéria é a prova, ela é extremamente mais difícil do que as das outras matérias.
Engenharia Elétrica para o Renovável – Não sei se pode ser considerado aula, acredito que esta mais para uma monitoria. Basicamente eles indicam um livro para você ler e fornecem slides para você dias antes das aulas. Ainda antes das aulas você recebe um trabalho para fazer e trazer nos dias. Nas aulas, vocês se juntam em grupos de quatro pessoas para debater sobre esse trabalho e para fazer um trabalho em aula. Durante esse tempo o professor fica passando nas mesas perguntando se temos dúvidas. Na teoria, era para termos 4 aulas práticas, em laboratório, ao longo do período, porém devido ao Corona, acabamos tendo apenas 2 dessas aulas. Apenas fomos ter aula nessa matéria durante um curto período de tempo, quando mudou o professor, este novo professor dava a aula e fazia os exercícios com os grupos, era muito mais dinâmico. No fim, tivemos 4 provas ao longo do período, não digo que sejam fáceis, porém não são impossíveis que nem em SmartGrid.
Gestão da Inovação – Simplesmente não tivemos aula. Tivemos três trabalhos em que escolhíamos o tema e fazíamos uma apresentação. Basicamente abordamos sobre privacidade em rede, fake News e feminismo. Todos os trabalhos não tiveram qualquer feedback, para saber onde erramos ou acertamos. Não houve nem mesmo debate com relação aos trabalhos.
Princípios Físicos dos Sensores e Acionadores – Dividida em trabalhos semanais e um projeto final, essa matéria está classificada em elétrica, porém deveria estar em mecânica. A parte mais importante dos trabalhos dela não é a elétrica e sim a parte de modelização do solido no qual o sensor atuara e a simulação dele. Após tudo isso fazemos uma pequena simulação de circuito no LTSpice.
Sistema de Telecomunicação – Essa matéria foi uma das mais bem organizadas durante o período do COVID, o professor gravava aulas e deixava elas online. A aula era suficiente para conseguir fazer os exercícios da semana, com algumas exceções. As práticas usando do LabView também são interessantes, contudo, o software é complicado de se usar e extremamente pesado para a maior parte dos computadores, cerca de 20% da turma não conseguiu instalar o programa.
Sistemas Eletrônicos para Sensores – Com foco na parte eletrônica dos sensores, com amplificação, ondulação e filtragem, essa matéria possui péssimos slides e trabalhos bem complicados. No geral, com um pouco de estresse e esforço, da para se passar nessa matéria facilmente.
O InterCentrales é a maior competição esportiva dentro dos grupos centralianos, no qual temos 5 esportes diferentes: handebol, futebol, vôlei, basquete e rúgbi. As cinco centrales se encontram em algum local definido em acordo mútuo, de acordo com a preferência delas, nos dois anos em que estive na França fizemos ambos os campeonatos em Lyon. Infelizmente não consegui ir nessa competição em nenhum dos dois anos, por isso não posso compartilhar muito da minha experiencia com vocês, porém além da possibilidade de ir até a cidade de Lyon, existe um clima competitivo diferenciado aos outros torneios que veremos abaixo, além de possuir soirées feitas para aqueles que estão participando dos torneios.
IntraCentrales
O Intracentrales é basicamente um campeonato entre todas as pessoas de uma mesma Centrale, equipes mistas de 10 pessoas são formadas com o objetivo de jogar todos os esportes, handebol, futebol, vôlei, basquete, rúgbi e um surpresa, que muda a cada ano.
No meu primeiro ano aqui montamos uma equipe de 10 pessoas, com 6 brasileiros e 4 hispanófonos, tentando pegar pessoas boas no futebol e no basquete, garantindo assim, pelo menos, dois esportes. Eram 7 homens e 3 garotas. A fase de grupos foi razoavelmente tranquila, terminamos em segundo, ficando atrás do primeiro colocado por saldo de gols e sem perder nenhuma partida contra as duas outras equipes, já que eram duas das mais fracas equipes do campeonato inteiro. Infelizmente, ao chegarmos nas oitavas de final caímos no futebol contra a equipe oficial da Centrale e, para piorar, com dois desfalques importantes devido a lesão. Levamos uma goleada e saímos da competição.
O sentimento que essa competição traz para mim é o adeus do inverno e da sensação que ele traz, já que ela começa exatamente quando começa a ficar quente em Lille, trazendo a volta dos esportes durante a tarde na residência e a volta dos churrascos e da tranquilidade de poder pegar sol no gramado da residência.
Infelizmente, durante meu segundo ano esse evento não ocorreu, já que, devido ao COVID, todas as aglomerações foram proibidas.
T5B
A última grande competição que eu participei e que engloba todos os esportes que a Centrale participa é o Tournoi des 5 Ballons, ela engloba algumas universidades do Norte da França e possui um torneio com misto de mata-mata e fase de grupos ao longo de um dia. Ao fim do torneio, por volta das 5 da tarde, existe o show de encerramento com as pompons, no qual cada École faz sua apresentação e a melhor leva o troféu de pompom para casa. Após isso, temos ainda uma festa em Lille no qual todas as equipes participantes do torneio são convidadas a ir.
Esse torneio é interessante de acompanhar pois acontece exatamente no caminho entre a École e a residência Leonard de Vinci, ou seja, é fácil de ir e vir para os centralianos. Como ele acontece logo no início do período letivo acaba que ele vira, para os internacionais, um torneio de integração com os franceses.
Aqueles que estão acostumados com os campeonatos entre universidades, podem até acabar achando o WEI uma brincadeira de criança, porém é o mais próximo que existe aqui na França. O WEI ou Fim de Semana de Integração é o evento mais esperado por aqueles que gostam de festa e de álcool, nele nos viajamos para algum lugar surpresa, no qual passamos 2 dias inteiros bebendo e se divertindo.
Tudo começa quinta feira a tarde, com a Centrale interrompendo todas as suas aulas até a segunda feira. Os calouros saem das aulas até meio dia e vão para a residência para se preparar para a guerra entre os ônibus. Cada ônibus tem sua cor própria, geralmente baseada nas associações existentes. Os membros de um ônibus devem sempre usar roupas com a cor correspondente.
No meu ano e no ano anterior, essa guerra havia sido utilizando comida, desde farinha e ovos até ketchup e mostarda, tudo dependendo do orçamento do ônibus que você participava. Já no ano seguinte, com o objetivo de evitar o desperdício de comida, a guerra era toda feita utilizando água colorida, deixando as roupas dos adversários com uma mancha da cor de sua equipe, uma forma de paintball, porém com balões d’agua. Devo admitir que é um pouco menos engraçado do que ver seu amigo engolindo ketchup e farinha, porém é ainda assim uma ideia genial.
Logo após a guerra de comida os estudantes vão para as suas casas se arrumar e fazer a mala, esperando a saída do ônibus para levar ao local surpresa que passaremos os próximos dias. Antes do momento de entrar no ônibus cada equipe faz sua concentração cantando músicas relacionadas com a cor do ônibus e desafiando as equipes rivais na cantoria. Uma coisa importante a se saber antes de entrar no ônibus é que não importa o local do WEI, os ônibus sempre vão demorar no mínimo 10 horas para chegar ao local. Durante essas 10 horas, os franceses estarão bebendo e cantando no seu ouvido.
Ao entrar no ônibus você tem três escolhas: chaud, pas chaud e froid, o que para os franceses significa quero ficar loucasso, quero ficar bêbado ou não estou muito a fim de beber. Na minha primeira vez como calouro, falei que estava extremamente chaud, e fui para a zona no fundo do ônibus, onde ficam os que vão mais beber e cantar. Na segunda vez, como eu fazia parte da associação responsável pelo ônibus, eu era um dos que tinha a responsabilidade de embebedar os internacionais.
Na minha primeira vez nesse ônibus eu descobri diversas brincadeiras novas com os franceses, como o Paquito, o Limousin, a guerra de fileiras e infelizmente, o helico. O Paquito é basicamente um crowd-surfing só que com todos sentados e, nesse caso, dentro de um ônibus. A guerra de fileiras é a competição entre a fileira da esquerda e a da direita do ônibus para ver quem termina com 5 litros de vinho primeiro. Já o Limousin é algo típico francês, em que eles começam a cantar uma música, onde cada parte da música pede que a pessoa tire uma parte da roupa, até que a pessoa em questão fique sem nada, nesse momento vem o helico, que bem, vocês já devem imaginar.
Depois de muito álcool, diversos vômitos e muitas sonecas, finalmente chegamos ao local onde vamos passar a sexta e sábado inteiro. Assim que chegamos, os membros do BDE distribuem diversos kits com copos de plástico reutilizáveis, uma camisa branca e outros acessórios que diferem a cada ano. Em seguida somos encaminhados a nossa casa, caso você seja G1, as pessoas da sua casa são aleatoriamente escolhidas, forçando a integração. Caso você seja G2 é 100% sua escolha com quem você vai compartilhar o alojamento. É interessante ser aleatório como G1 porque ajuda na integração, principalmente sendo internacional, porém as vezes pode acabar saindo com alguém extremamente folgado ou irritante. Felizmente, não foi meu caso. Chegando nos quartos, umas 8 da manhã, definimos quem vai ficar com cada cama e dormimos até umas 11 que é a hora do brunch.
Dependendo do local e do BDE que está organizando, os eventos variam, podendo ser geniais e inesquecíveis ou apenas divertidos. A sexta a tarde é sempre reservada para as associações fazerem seus eventos. Enquanto sábado é reservado para os esportes. Em ambos os casos temos diversos eventos alcoólicos ao longo do dia. Pessoalmente começava a beber umas 11/12 horas e geralmente chegava as 18h completamente morto e bêbado. Depois de descansar um pouco, tomar um banho, jantar e deixar o álcool sair do sistema, vamos para o local da principal festa, que tem duração até 3 da manhã.
Depois desses dois dias em que vamos dormir bêbados e acordamos bêbados temos um domingo mais tranquilo, no qual devemos limpar a casa em que ficamos para não pagar uma indenização e depois entramos no ônibus para voltar. Não posso dizer que no ônibus da volta é tranquilo de dormir, porém é bem mais do que o da ida. As exceções são os dois ônibus finalistas. Caso você seja deles, boa sorte para descansar, pois eles ainda estarão bebendo, gritando e cantando. No meu segundo ano tivemos um francês que começou a contar até 1000 no início da volta. O pior de tudo é que ele realmente terminou de contar.
Essa associação provavelmente vai ser a que mais vai fornecer suporte durante sua chegada na França. Para alguns também será a associação que mais vai se trabalhar, já que, todas as coisas das quais falei nas duas semanas de integração foram organizadas pelo Club Time ( CT ). Além desses eventos, existem ao longo do ano alguns outros organizados junto à Centrale. Podem ser desde coquetéis e almoços até viagens e soirées.
Quando nossos veteranos decidiram que iria acontecer a passagem do escritório para os calouros eu tinha a mais absoluta certeza de que iria querer ser o presidente da associação e por isso já demonstrei interesse em ajudar com tudo e a todos. Meu objetivo era conseguir ajudar os estrangeiros, em especial os brasileiros, na integração e adaptação. Devo admitir, vendo atualmente, que essa mentalidade serve apenas para a presidência da Brasa Lille, e que não seria muito bem-vinda como presidente do CT, já que provavelmente daria preferência para as pessoas de minha nacionalidade.
Junto comigo, uma outra brasileira tinha interesse em se eleger, ela já era chefe de projeto, responsável de parcerias do BDE e sempre é uma pessoa muito atenciosa com os problemas das pessoas sob suas ordens. Vendo a concorrência que teria, decidi fazer diversas propostas que fossem melhorar a fundo tudo que o Club Time ainda tinha como defeito e preparei minha apresentação. No dia da eleição, escolhi o lado racional das pessoas e minha concorrente, para o pessoal. No final ela ganhou a votação e foi assim eleita a presidente. Pela forma como ela ganhou, usando totalmente de carisma e de apego emocional, com poucas propostas, me senti injustiçado e eu preferi me afastar da associação.
Após um tempo, a presidente eventualmente veio conversar comigo, vendo se eu não me interessava em participar, como responsável, do Partage de Moveis. Nesse momento eu percebi que mesmo não sendo presidente, não tinha motivo para eu acabar me afastando, já que meu objetivo de ajudar os internacionais poderia ser atingido de outras maneiras dentro da associação. Assim, resolvi virar responsável por esse evento, que é basicamente um dia reservado para a doação de todos os moveis que coletamos durante abril, maio e junho. Minha responsabilidade girava em torno de coletar todos os moveis, guarda-los e organizar a doação.
Após o fim desse evento e da semana de integração, o Club Time passou por uma reformulação dos seus cargos, saindo o vice-presidente interno (VPI) antigo e precisando de um novo. Dessa vez já mais animado com o trabalho e vendo o quanto que eu podia ajudar mesmo sem ser presidente, eu entrei como VPI. Após isso ainda tivemos alguns eventos como soirées e almoços, mas no geral é bem tranquilo o trabalho fora das semanas de integração.
Atualmente, tendo um olhar mais externo com relação a eleição e a tudo o que aconteceu internamente na associação eu pude ficar tranquilo sabendo que ganhou a eleição a melhor pessoa que poderia estar no cargo. Ela é uma pessoa dedicada e que fez um ótimo período de integração.
Em minha opinião, uma pessoa, para ser presidente da associação dos internacionais deve ter, além de uma enorme competência, um carisma e empatia acima do normal, o que é algo que faltava e mim e que existia de sobra nela.
Para aqueles que não conhecem a BRASA, ela é uma associação voltada para os brasileiros que tem como objetivo passar um tempo fora, seja em intercambio, duplo diploma ou graduação. No momento em que eu estou escrevendo, a BRASA já possui filiais em diversas localidades dos Estados Unidos e está começando a se firmar no continente europeu, possuindo raízes na França, Holanda, Portugal e Espanha.
Após a euroleads de 2018, eu, junto com um veterano de Lille, decidimos fundar a BRASA Lille, uma repartição da BRASA que seria responsável pelos brasileiros dos arredores de Lille. Sendo o fundador dela, trabalhei junto aos responsáveis do projeto de criação de dentro da BRASA. Eles me passaram dicas e restrições para o primeiro evento da associação e me deram todo o suporte necessário para a produção dele.
Como tínhamos como objetivo desenvolver a associação para outras pessoas que não fossem centralianos, nosso primeiro evento teve uma abordagem mais social do que o normal, utilizamos da estrutura que encontramos na residência para poder fazer a Soirée Caipirinha, um evento de brasileiros para brasileiros, com direito a strogonoff, batata palha, guaraná antártica e, claro, muita caipirinha.
Dentro desse evento eu passei a maior parte do tempo conversando com os convidados, para tentar descobrir de onde eles são e como poderíamos fazer coisas que interessavam a eles. Ao final do mesmo tínhamos vendido mais de 50 entradas, das quais mais de 40 eram brasileiros, resultado que, na época, consideramos um extremo sucesso.
Infelizmente, o objetivo do evento não foi atingido, que era de trazer pessoas de fora da Centrale para trabalhar na BRASA, assim acabamos ficando apenas com membros centralianos. Desde esse momento até atualmente, fizemos ainda mais 3 eventos, dos quais dois foram workshops e um deles foi um evento de apresentação da BRASA Lille para os calouros brasileiros da centrale. Atualmente estamos na fase de transição da BRASA, na qual um novo grupo de calouros assumiu a coordenação dela, organizando um planejamento anual para ser aprovado pela gerencia interna da BRASA.
As campanhas são semanas de eventos necessários para poder eleger os escritórios de esporte, estudos e artes. Nela, duas chapas fazem diversos eventos com o objetivo de mostrar quem é mais eficiente, assim eleitas no final a melhor chapa de cada escritório.
Quando cheguei na Centrale nós tínhamos as campanhas separadas em três momentos diferentes ao longo do período letivo, o primeiro sendo em dezembro, do escritório de artes, a segunda do escritório de estudos, em março e a terceira em abril, do escritório de esportes. Eu participei de uma das chapas que estavam concorrendo para o escritório de esporte e aproveitei as campanhas das outras duas listas. Começarei seguindo a ordem das datas, começando por BDA, depois BDE e em seguida BDS, falando da campanha durante o meu ano e após isso, comentarei as diferenças para com o ano seguinte.
A campanha BDA é aquela que possui menos tempo de preparação e menos gente envolvida. Como as aulas começam em setembro e a campanha já é em dezembro, acaba que eles têm 3 meses para formar o grupo, procurar patrocinador, levantar dinheiro e organizar todos os eventos. É muito pouco tempo para conseguir algo de extrema qualidade, mas ainda assim é uma semana muito proveitosa para aqueles que não listam.
Durante as campanhas BDA nos temos cafés da manha e lanches da tarde gratuitos em vários dias. Alguns dias também temos almoços por 3 euros. Todos esses eventos são feitos tanto na residência quanto nos locais de aula da faculdade. Além disso, temos uma soirée por chapa na residência, e uma por chapa em Lille, através de uma parceria com algum bar ou boate. No mais, temos uma outra soirée na residência conhecida como Torcho, que é uma enorme festa com duração de 5 horas, das 22 às 03 da manhã, apenas para as pessoas da Centrale e do Iteem.
Por fim, existe um evento chamado aprèm, que ambas as listas fazem, uma em cada dia e que percorre a tarde inteira de algum dia da semana. O problema desse evento para o BDA é que ele é ao ar livre e estamos no meio do inverno, logo acaba que não existe uma enorme quantidade de gente indo ao evento. Por último e menos importante temos o debate presidencial, no qual o presidente de cada lista responde as perguntas dos eleitores centralianos. Esse evento é gravado e colocado no grupo de Facebook dos centralianos para todos poderem ver e avaliar. Diferente do Brasil, esse debate é o que menos importa para os franceses. É muito mais importante mostrar ser capaz de fazer coisas de qualidade através dos eventos ao longo do período de campanha.
Foto de Torcho da campanha BDE
Ao fim de cada época de campanha, o CLAP, associação responsável pelo conteúdo de audiovisual dos eventos, faz uma soirée para anunciar os resultados. Nela eles passam vídeos excepcionais mostrando todo o desenrolar da campanha e depois apresentam, também magistralmente, o vencedor.
As duas outras campanhas (BDE e BDS) são muito parecidas com a do BDA. Elas possuem mais qualidade de comida, bebida, decoração, atividades e melhor organização, já que envolve mais tempo de preparação e mais dinheiro. O preço cobrado dos almoços era, ou mais barato, ou tinha um nível de comida muito mais alto, além disso a qualidade dos lanches e cafés da manhã são sempre melhores. As soirées e o Torcho possuíam mais decorações e mais bebidas, além de uma ambientação muito melhor em todos eles. Por fim, o aprèm das listas possui uma presença muito maior das pessoas, além de ter várias atividades que dão prêmios caríssimos, como televisões e switchs.
Além disso, as campanhas BDS, são ainda mais próximas do verão, gerando uma quantidade ainda maior de pessoas que a do BDE e BDA juntas. Elas possuem um evento a mais que as outras, que é o aprèm competitivo, onde ambas as listas organizam o aprèm ao mesmo tempo, competindo para ver qual das duas possuirá o melhor ambiente.
Aprèm Competitivo da campanha BDS
No meu segundo ano na Centrale, a direção decidiu fazer algumas mudanças em como funcionariam as campanhas, pois ela acreditava que competia com os cursos, fazendo com que os alunos ignorassem, por muitas vezes, os cursos dados em aula e se preocupassem apenas com os eventos que eles teriam que organizar.
Como eu participei da campanha BDS posso dizer que por muitas vezes isso é verdade. Ignoramos as aulas dentro da Centrale e focamos nas campanhas, porém, o que eles não entendem e não conseguem aceitar quando falamos, é que aprendemos muito mais organizando inúmeros eventos em larga escala em um curto período de tempo, do que nas aulas do primeiro período da Centrale.
Infelizmente os alunos não tiveram voz dessa vez e a Centrale reduziu as campanhas, o que acontecia em 30 dias intercalados ao longo de três períodos de 10 dias, virou 21 dias, todos em dezembro, durante o inverno. Isso gerou uma diminuição geral da quantidade de eventos, saindo de 6 Torchos para apenas 2, uma redução drástica na qualidade de tudo e ainda, um desanimo durante as campanhas, causado pelo frio e falta de sol.
As campanhas ainda continuam muito boas, com comida gratuita, um ambiente animador e de alta qualidade, porém, comparado com o ano passado, não chega nem perto.
A visão de um listoso
Depois do WEI de 2018 eu fui chamado por um grupo de franceses para poder listar como BDS em abril de 2019. Na época não sabia muito o que eram as campanhas e acabei aceitando por pressão social. As primeiras reuniões com eles foram péssimas, não conseguia entender nada do que falavam, tinha dificuldade até para saber qual era o assunto da discussão da vez e muitas vezes apenas seguia a manada nas escolhas.
Essa situação ficou assim até o final de fevereiro, quando fizemos uma viagem, apenas com as pessoas da lista, para o Sul da França. Ficamos lá por uma semana na tentativa de trabalhar todos juntos para poder deixar tudo organizado para a volta das aulas. Foi durante essa viagem que eu me enturmei com eles e consegui melhorar o meu francês para um nível que eu finalmente entendia o que acontecia nas reuniões e conseguia dar certas opiniões.
Voltando dessa viagem eu estava realmente muito animado, decidi participar a fundo dos dois eventos dos quais eu, junto com outro brasileiro, era responsável. Fizemos orçamentos, decorações, receitas e tudo o que podíamos para deixar tudo o mais organizado possível.
Depois de muito trabalho organizando todos os eventos, finalmente chegou o dia anterior do lançamento da campanha. Começamos o dia fazendo diversos crepes e treinando a coreografia para a dança de abertura. Finalizando com uma reunião para as últimas informações de como se portar, como agir com pessoas inconvenientes e outros casos mais específicos.
No dia do lançamento conhecemos a outra lista que concorreríamos (sim é segredo quem participa até o ultimo momento) e fizemos alguns jogos alcoólicos para chegarmos bêbados no lançamento de nossa campanha. A partir dai é uma correria, são 10 dias em que é simplesmente impossível parar para respirar, existe trabalho desde as 7 da manha até meia noite nos dias normais e em alguns dias, quando estamos atrasados, varamos a madrugada trabalhando.
Mesmo com todo esse cansaço, cada momento da campanha é especial, ver o seu trabalho sendo realizado e todas as pessoas curtindo muito os eventos que você está fazendo é extremamente satisfatório. Não me arrependo em nenhum momento de ter listado, muito pelo contrário, foram momentos magníficos e formei uma família composta basicamente de franceses. Recomendo que, todos que tiverem a oportunidade de participar, entrem de cabeça. Mesmo custando um pouco de dinheiro e ocupando muito tempo, vale muito a pena.
Agora que já entendemos um pouco a diferença entra a vida associativa do Brasil e da França, é o momento de poder conhecer mais a fundo todas as associações. Começarei falando por aquelas que conheço mais, pois participei ou cheguei a ajudar e terminarei com aquelas que apenas conheço o nome, sem nunca ter visto algum projeto ou evento da mesma.
Brasa Lille – Associação fundada por mim em 2018, ela não é necessariamente da Centrale, apesar de estarmos com um projeto para coloca-la como parte das associações centralianas. É uma associação voltada para capacitar e empoderar brasileiros dos arredores de Lille. Ela é um projeto de uma empresa chamada BRASA. Possui pagina no Instagram e no Facebook com fotos e vídeos dos eventos feitos. Farei um tópico apenas para ela, para aqueles interessados.
BRASA Lille
CLAP – Na minha opinião, uma das associações mais legais da Centrale, o objetivo dela é cobrir todos os eventos centralianos e conseguir fazer vídeos dos mesmos para apresentar durante os próprios eventos. Eles são amados por basicamente todos os estudantes da faculdade. Possui um ambiente muito bom de trabalho e diversos eventos internos para facilitar a integração.
CLAP Centrale Lille
Comm Flash – Seguindo o caminho do CLAP de edição de vídeos, temos aqueles responsáveis pela cobertura do evento através de fotos. Eles possuem pelo menos uma pessoa trabalhando em cada evento com o objetivo de tirar o máximo de fotos possíveis, para depois trata-las e posta-las.
Comm’Flash
Centrale Kebab – é uma associação divertida de participar se estiver em amigos, o objetivo dela é basicamente fazer Kebab pra vender nos eventos. Geralmente tem cerca de 3 eventos no ano em que devemos comprar, cozinhar, preparar e vender o kebab. É interessante como hobbie. Eu entrei nessa associação para aprender a fazer kebab para mim mesmo.
Pompom – Quando cheguei tinha a expectativa de que era equivalente ao cheerleader do Brasil porém quando vi as apresentações vi que não chegava nem perto do mesmo. Estava mais próximo de uma versão piorada do que retratavam nos filmes antigos americanos, apenas com dança utilizando do pompom e sem nenhum homem. Essa situação começou a mudar graças a uma brasileira que fazia cheer no Brasil e trouxe todo o conhecimento que ela tinha para a equipe.
Pompoms apos uma de suas apresentações
Michels – é a associação referente à equipe de rúgbi, sendo separada entre o time masculino e o feminino. Eles fazem alguns eventos com o objetivo de arrecadar dinheiro para poder comprar uniforme e fazem um calendário com um ensaio sensual dos membros da associação para vender para os estudantes centralianos.
Club Time – Já falei um pouco dela nos momentos em que comentei da integração dos calouros em Lille. O objetivo dessa associação é a de conseguir facilitar a vida do estudante internacional nessa transição de pais, cultura e língua. Ela tem um enorme papel nas primeiras semanas, quando os internacionais chegam, porém acaba perdendo um pouco do espaço para as outras associações depois. É interessante participar da mesma graças à enorme diversidade cultural que existe dentro dela, ajudando a aprender a trabalhar com os mais diferentes tipos de pessoas.
Club Time
CLAF – Associação que defende os direitos feministas das garotas da Centrale. Infelizmente, de acordo com as brasileiras que participaram dele, a associação não tem muita força e não procura bater muito de frente com a maior parte dos problemas.
Foy’s – Acredito que posso dizer ser a associação mais conhecida pelos Centralianos, é a responsável pela organização do nosso lugar de festas, o Foyer. É ela que compra as cervejas, organiza o local, compra os equipamentos de som, bebida e entre outros. É, junto com o CLAP, uma das associações mais amadas da Centrale e possui um grupo de estudantes gigantesco trabalhando nela, apesar de ser uma das que demanda mais trabalho.
Foy’s Team
Club de Culture Chinoise – O objetivo que eles dizem ter é o de mostrar a cultura chinesa pros estudantes da Centrale, porém, na prática, o que acaba acontecendo é que eles são uma associação voltada pra integração entre os próprios chineses, não fazendo praticamente nenhum evento de grande escala.
Centrale Consulting Club – Associação fundada em 2019 por uma brasileira, está crescendo bastante em sua atuação dentro da Centrale. O objetivo dela é de formar os estudantes centralianos na área de estratégia e finanças, assim como ajudar a desenvolver networking dentro e fora da Centrale.
Centr’All games – Aqueles que gostam de RPG, jogos de tabuleiro ou apenas vídeo games, vão se encontrar nessa associação. Eles possuem uma sala própria que serve para guardar os jogos e também como local de encontro para poder jogar. Infelizmente jogar RPG em outra língua é extremamente difícil, o que atrapalha um pouco no desenrolar da história.
Club Cuisine – Possui uma cozinha do tamanho de uma casa da residência e tem como objetivo fazer fornecer ajuda de espaço e equipamento para as associações que estão para fazer grandes eventos.
BDA – Basicamente é o escritório de arte, é o responsável por organizar alguns eventos artísticos como o Talentos do Norte, Icare e o Paon d’Art, cada evento tem sua especialidade e foco específico. Também possui a responsabilidade de visitas culturais, cinemas e teatros. Infelizmente não sou muito ligado com a área artística e por isso não consigo comentar muito mais sobre o mesmo. Varia cada ano.
BDE – Associação responsável pela comunicação entre os estudantes e a Centrale, eles têm como objetivo facilitar a vida do estudante centraliano e evitar uma falta de comunicação entre a diretoria da faculdade e os alunos, é o equivalente ao centro acadêmico brasileiro. Também possuem diversos eventos de integração. Varia cada ano.
BDS – Associação responsável pelos torneios esportivos e pela manutenção dos centros de treinamento de cada esporte. Temos sempre, no mínimo, três torneios importantes que são da responsabilidade do BDS, o primeiro, T5B, é organizado apenas pela associação, sem ajuda de outras e conta com a participação de algumas universidades da região Norte da franca. O segundo torneio que acontece é o InterCentrales, que aconteceu, nos dois anos em que estive aqui, em Lyon e é basicamente uma competição entre as 5 Écoles Centrales. Por fim, existe o torneio interno da Centrale, onde a equipe joga todos os esportes para decidir o vencedor. Varia cada ano.
Centr’ailes – Tudo que é relacionado com setor de aviação é de responsabilidade dessa associação, eles já fizeram visitas a empresas de aviação, assim como passeios em jatos e aviões fretado.
Centrale Lille Projets – Basicamente é uma empresa júnior da França. A forma de trabalhar é um pouco diferente, mas no geral, serve para dar ao jovem engenheiro alguma experiencia na área de gestão de projeto e de empresa.
Cheer’Up – é uma associação que faz eventos com o objetivo de levantar fundos para combater o câncer.
Club Voile – Aqueles que sentem falta de praia vão gostar dessa associação, ela tem como objetivo fazer idas a praias, principalmente a de Dunkerque para fazer vela.
Forum – Organiza o maior evento da Centrale, o Forum Rencontre, que é um evento no qual diversas empresas vão para a Centrale na expectativa de encontrar estudantes para poder realizar troca de informações e experiencias e eventualmente, conseguir um estagiário que se encaixe no quadro da empresa.
Gala – Responsável pelo evento de formatura dos centralianos a cada ano, ela faz eventos pequenos ao longo do ano para poder acumular dinheiro e fazer um evento de qualidade para os formandos.
ISF – é o engenheiro sem fronteiras, estão muito voltados para o ambiente do desenvolvimento sustentável e por isso, fazem diversos programas dentro da Centrale para desenvolver essa consciência.
Rézoléo – Grupo responsável pelo gerenciamento da internet da residência, são eles que fazem a instalação de toda a rede de interna em todos os prédios.
Robotique – Associação que mais se assemelha a equipe de robótica que eu participava do brasil, porém, para aqueles acostumados com o nível brasileiro, o daqui é muito abaixo. Recomendo para aqueles que não tem qualquer experiencia ou que conhecem pouco.
Plug’In – Aqueles interessados pela parte musical devem entrar nela, existem alguns eventos durante o ano no Foyer onde essas bandas tocam.
Pouce d’or – Responsável pela organização em escala Centraliana do Pouce d’Or, um evento famosíssimo na França.
Aqueles que vieram do Brasil, muito provavelmente chegaram a participar de alguma associação ou equipe de competição durante a estadia na faculdade. Aqui na França, muitas dessas pessoas que se mostraram extremamente interessadas nessas equipes em seu país, acabaram por mal participar da vida associativa da França. E te garanto que isso não foi por falta de oportunidade.
Nas faculdades de engenharia do Brasil temos cinco ou mais equipes de competição por faculdade. Robótica, aviação, foguete, carro de corrida e baja são ótimos exemplos. Algumas possuem ainda consultoria, empresa júnior e mercado financeiro, envolvendo projetos com pequenas empresas, incubadoras e parceiras da faculdade. Ainda temos uma boa quantidade de grupos sociais, envolvendo movimentos por igualdade de gênero e de raça. Além disso, temos as associações esportistas, que se encontram extremamente presentes no mundo universitário brasileiro. Por fim, quase toda faculdade tem também seu escritório de estudantes e o de esportes.
Considerando esse parágrafo acima e comparando com as associações francesas, vemos que as quantidades e temas das associações são próximas aos do Brasil, logo o motivo de não ter a presença dos brasileiros não é por falta de opção ou por presença de temáticas que não nos interessem. Tendo isso em vista, vamos seguir para outros pontos de comparação para tentarmos chegar ao problema.
Se pensarmos em questão de carga horaria, podemos usar como base de dados as experiencias que eu e diversos amigos meus tivemos no Brasil, comparando com a experiencia que estou tendo na França. Tentarei separar entre os diferentes tipos de equipe, já que a carga horaria varia muito.
Primeiramente vendo o âmbito de equipes de competição brasileiras, usarei a comparação com a RioBotz, equipe de robótica da PUC-Rio, na qual eu mesmo participei como coordenador de 3 setores diferentes. Nela tínhamos a carga horária livre, usando o tempo entre as aulas e antes de voltar para a casa para podermos trabalhar em nosso laboratório. Além disso, íamos em fins de semana próximos de competição para trabalhar durante os dois dias. No geral, uma pessoa média, sem ser coordenador ou presidente, passava cerca de 5 horas por dia no laboratório, porém em véspera de competição esse número poderia aumentar para até 10 horas por dia. Como coordenador, eu passava mais de 12 horas por dia no laboratório em véspera de competição, virando noites quando necessário para terminar o robô.
Foto da equipe em 2018.
No ramo empresarial, usarei a empresa júnior como exemplo. Elas fazem uma função de consultoria em menor escala, trabalham nas empresas com o objetivo de ajudar elas com os problemas de financiamento, projetos e pessoas. Em questão de trabalho, geralmente as pessoas ficam cerca de 5 horas por dia na sala que a EJ possui e algumas outras horas por semana em reunião com as empresas parceiras. É bem raro ver as pessoas em fim de semana, mas o trabalho que eles levam para casa é considerável.
Com relação ao ramo social, o trabalho é um pouco menos pesado, porém os projetos são de larga escala, com uma enorme quantidade de pessoas, logo, para aqueles responsáveis pela administração de todo esse sistema acabava sendo diversas horas por dia de trabalho. Porém, para aqueles que não trabalhavam diretamente com a administração das coisas, tínhamos uma média de cerca de 10 horas por semana de trabalho manual e de escritório.
Por fim, do setor de esportes, temos o setor mais próximo da França, com dois a quatro treinos por semana, envolvendo a equipe inteira. A diferença entre ambas é mais ligada ao processo seletivo. No Brasil, trabalhamos com um limite de pessoas para entrar, de forma que esse grupo é o mesmo que vai treinar para as competições. Outro ponto gritante de diferença é o cheerleader em particular. Na França esta mais para uma dança usando pompons, começando a evoluir para o nível que chegamos no Brasil.
Obviamente que as horas de trabalho e a experiencia variam de acordo com a faculdade, carga horaria e responsabilidade da pessoa na equipe. O que estou supondo é usando apenas de dados das faculdades em que tenho amigos, ou seja, a realidade pode vir a ser razoavelmente diferente. O que importa é a comparação dessas altas horas de trabalho, com as que temos na França.
Praticamente todas as associações francesas têm uma carga horária extremamente baixa, apenas 4 horas da nossa semana são liberadas para a mesma pela faculdade e essas mesmas 4 horas são divididas entre todas as associações que escolhemos. Se compararmos com qualquer um dos casos do Brasil vemos que temos claramente menos tempo, gerando pouca contribuição com a associação e projetos pouco criativos e descomplicados. Poucas associações se livram desse ciclo vicioso, de trabalhos constantes e iguais, sem criatividade, sem perspectiva de projetos novos e, por vezes, sem evolução dos projetos antigos.
Agora que vimos essa grande diferença entre ambos, podemos então começar uma análise para tentar descobrir o que que essa grande diferença influência nas entradas dos brasileiros nas associações. Essa influência é totalmente ligada à queda de motivação das pessoas para com os trabalhos em associações.
A motivação de uma pessoa é diretamente ligada ao que ela faz, o que ela consegue completar, ao senso de importância que ela tem das coisas que ela faz e o que ela sente que consegue aprender fazendo o trabalho. Assim, podemos ver que, trabalhando mais, por mais tempo, de forma mais produtiva, acaba atingindo mais as pessoas e motivando mais elas a continuar nesse trabalho. É muito difícil ver alguém em uma equipe do Brasil, que sente que seu trabalho não está sendo produtivo, que não é importante, ou então que não está adquirindo conhecimento. Isso é ainda mais difícil em equipes de competição onde o resultado de vitória permite uma satisfação inimaginável.
Agora você pergunta, e porque as associações francesas não conseguem gerar essa motivação nas pessoas? Bem, a questão é simplesmente o objetivo dessas associações:
Venda de sanduiches para Centralianos
Venda de Kebab para Centralianos
Fazer um jornal que a parte mais lida é a de fofoca
Tirar e postar fotos
Jogar jogos de tabuleiro
Existem diversas outras associações que possuem o objetivo simples de diversão, fazendo coisas que não geram muita evolução pessoal ou profissional. Para mim, isso é o equivalente a participar de um grupo de amigos com um interesse em comum, como cozinhar, fazer fofocas e tirar fotos (sim existem associações para os três tipos). E é aí que vem a principal diferença, nós viemos do Brasil, e estamos enraizados com uma cultura de que se é para eu gastar meu tempo em uma associação, que seja para fazer algo grandioso e que agregue coisas para mim, exatamente por isso que acabamos evitando de entrar nessas associações e procuramos coisas externas à faculdade para ocuparmos nosso tempo. (Estou falando nesse caso por mim e pela maior parte dos brasileiros presentes aqui em Lille)
Para não ser injusto com algumas associações, temos aquelas sérias e que valem a pena entrar, aquelas que possuem projetos realmente importantes e/ou inovadores, permitindo evolução pessoal e profissional. Dentre elas posso citar: Foy’s, Club Time, CLAP, BDXs, Rezoleo, Forum Rencontre, Gala, ISF e a Empresa Junior.
A cada ano temos um evento feito por uma associação da École Centrale Lille chamado Forum Rencontre, ele permite o contato de diversos estudantes de engenharia (mais de 1500 de acordo com o site deles) com mais de 70 empresas dos mais diferentes setores. Participei de dois no total, um em meu primeiro ano, e outro um ano depois. O primeiro fórum foi um pouco catastrófico, meu francês era muito fraco para conversar por longos minutos com diversas empresas, ainda mais sobre assuntos do ramo mais profissional. Em meu segundo ano, possuía um francês melhor, maior conhecimento técnico e acima de tudo, mais confiança em mim mesmo, possibilitando um contato muito maior com diversas empresas e os diversos empregados delas.
Logo da associação responsável pelo evento
Em suma, dentro de um fórum temos 4 tipos de pessoas:
aquelas que estão trabalhando para manter a organização do fórum, que fazem parte da associação e procuram sempre manter um nível ótimo durante todo o evento.
os g2s e g3s (estudantes de segundo e terceiro ano) que estão presentes à procura de um estágio para validar suas horas na faculdade e poder ganhar mais experiência no currículo. Normalmente estes acabam indo de empresa em empresa, pedindo informações e apresentando o currículo.
Os g1s (estudantes de primeiro ano) que procuram desesperadamente estágio de um mês e abordam todas as empresas, das mais diversas maneiras, procurando apenas qualquer uma que aceite seu currículo para poder se candidatar.
E por fim aqueles que estão lá mais para ver o ambiente e tentar entender como que funciona aquele mundo empresarial, tão diferente do nosso mundo de faculdade, podendo ser g1, g2 ou até mesmo de outras faculdades.
Outubro 2018 – Nesse primeiro fórum eu fui com certeza parte do ultimo grupo. Não sabia direito com o que eu queria trabalhar, transitando entre áreas de gestão, robótica e inteligência artificial. Procurei tentar conversar com o máximo possível de empresas dessas áreas com o objetivo de entender mais o que se passava nelas, sem o objetivo de obter realmente um estágio, já que a maioria nem possuía ofertas para estágios de primeiro ano.
Acredito que esse fórum me possibilitou uma experiência e consciência para abordar as empresas no fórum do ano seguinte. Em comparação com os g1s do meu ano creio eu deva ser um meio termo, não sai desesperado atrás de todas as empresas possíveis e tão pouco deixei de lado o evento.
Estudante conversando com os responsaveis de recrutamento de uma empresa
Outubro 2019 – É nesse fórum que as coisas ficam sérias. Como um g2 e estudante internacional, nós temos praticamente a obrigação de usar esse fórum para ir atrás do nosso estágio de encerramento. Devido a isso a preparação para ele deve ser muito melhor. Currículos preparados para diferentes empresas, com pontos específicos para cada uma. Perguntas formuladas para cada empresa, com caderno de anotações em mãos e uma roupa mais arrumada.
Desta vez decidi que ia atrás da área de logística, já que havia adquirido um gosto muito maior por esse setor ao longo do último ano. Para vocês terem uma ideia da preparação feita para esse fórum, decidi definir uma lista de itens para avaliar as empresas, de forma que consiga medir a prioridade que aquela empresa deveria ter para mim. Segue a lista abaixo:
Presença de Supply Chain ou Logística – claramente não posso deixar de colocar como mais importante a área em que eu gostaria de trabalhar, aquelas que não tivessem estágio nessa área teria que estar muito bem classificada nos outros itens para que eu acabe dando muita importância para ela.
Diversidade de produtos da cadeia de suprimento – isso permite uma maior gama de experiência e de possibilidades de aprendizado dentro da logística, já que cada produto exige uma cadeia de suprimento própria e desafios diferentes.
Contato com diferentes culturas – Desde minha vinda para a França eu acabei tomando como hobby para mim mesmo a atividade de conhecer novas culturas, logo uma troca cultural durante meu estágio seria algo muito bem-vindo.
Possibilidade de continuidade no Brasil – Assim como os franceses querem poder continuar trabalhando na empresa após o fim de seu estágio, na minha opinião seria muito interessante poder estagiar os 6 meses necessários aqui na França e depois continuar meu trabalho no meu país natal.
Proximidade de Lille / Facilidade de Locomoção – Esse ponto é mais uma questão básica de praticidade, de não ter que fazer uma mudança de uma cidade para outra, de poder continuar na mesma cidade em que já estava, com as pessoas que eu já conhecia. Porém, uma questão que é um pouco mais importante para mim, é a existência de meios de transportes públicos que me permitam chegar ao local do estágio, já que seria muito complicado conseguir um carro apenas para seis meses de estágio.
Reconhecimento Internacional – Se após todos os pontos, as empresas ainda estiverem empatadas, acabo colocando a questão de tamanho da empresa em jogo, apesar de que, para mim, isso é de longe uma das coisas com menor importância.
Foi com essa mentalidade que eu cheguei ao fórum, as 7:30 da manhã, pronto para ser o ajudante da empresa que eu tinha mais vontade de trabalhar: a Auchan Retail.
Grupo de estudantes responsável pela organização do Forum 2019
Não vou mentir, estava bem nervoso. Era um dia extremamente importante no qual eu não podia fazer nada de errado para maximizar minhas possibilidades de estágio. Mal havia chegado no local e recebido as informações essenciais do dia que um dos responsáveis do fórum já chegou falando “Ajudante da Auchan Retail, sua empresa chegou”. Nada melhor ser o primeiro de todos para me deixar ainda mais nervoso.
Fui para a recepção encontrar com o representante e para a minha surpresa ele era tão jovem quanto eu, não deveria ter mais de 25 anos, isso me acalmou muito e em 30 minutos de conversa já estávamos sendo informais e já estava sabendo diversas coisas sobre o auchan que me deixaram ainda mais animado para entrar na empresa.
Umas 8:30 chegaram os outros 3 representantes e então começamos a arrumar o stand deles para a chegada de todos as 9. Após a abertura das portas eu saí do stand para lhes dar a liberdade de trabalhar e voltava de uma em uma hora para verificar se tudo estava bem.
A partir das 9 eu comecei a andar em volta do fórum, para conhecer o ambiente melhor, verificar as empresas e preparar minha primeira conversa. Como já havia planejado, ia começar com empresas que estavam como de menor importância na minha classificação e depois ia escalando na classificação até as primeiras. Era um “aquecimento”, no qual me permitia errar para poder aprender e fazer melhor nas próximas.
De início escolhi duas de consultoria que possuíam alguma possibilidade de ter robótica, abordando uma seguida da outra. A conversa fluiu normalmente, muito melhor do que eu esperava. Uma delas não me atraiu muito o interesse, porém, dei meu CV mesmo assim, pois o representante ficou interessado nas minhas experiências. A outra era uma mistura de robótica com Supply Chain, algo que obviamente me deixou extremamente interessado. Depois de alguns minutos de conversa deixei meus dois CVs na mesma, aquele que havia preparado para a equipe de robótica e o de Supply Chain.
Após duas ótimas conversas e mais confiança, decidi ir direto para as empresas de distribuição, e assim conversei com a BUT. Infelizmente, a conversa não fluiu tão bem, não sei se não soube fazer as perguntas certas ou se a pessoa que veio conversar comigo não estava muito interessada no momento. Porém minha confiança abaixou e decidi me manter sem falar com as que eu estava mais interessado por enquanto.
Nesse mesmo momento chegaram os g1s brasileiros, pedindo conselhos para poder falar com as empresas, então acompanhei eles à duas que não eram de tanto interesse meu, mas que podiam surpreender, a ENEDIS e a Vinci Energies, porém em ambos os casos, nem logística, nem robótica eram setores de interesse nas mesmas, então serviu apenas para ganhar mais confiança para falar com as pessoas.
Após isso, decidi ainda antes do almoço ir atrás de mais empresas que estavam em alta na minha classificação: Toyota, La Redoute e Roquette. Dentre as três, a melhor, disparado, foi a Toyota, a pessoa que me atendeu era extremamente simpática e tivemos discussões sobre implementação do Supply Chain na mesma e as diferenças maiores com o resto do mercado, além de comentarmos na possibilidade de eu poder trabalhar no Supply Chain de uma nova marca de carro que lançará em 2020. As outras duas não tive tanto sucesso, porém consegui fazê-los pedirem meu CV e recebi a recomendação de fazer uma candidatura online em ambas a partir de novembro, que é a abertura para o recrutamento de estagiários em julho.
Chegando perto do intervalo para o almoço, decidi não abordar mais empresas importantes e voltei a dar uma ajuda para os g1s na abordagem das empresas, me ajudando a aliviar a tensão.
Durante o almoço não tive muito contato com os membros do auchan, eles começaram a conversar muito entre si, sobre assuntos internos que não havia possibilidade de eu entender. Acabei conversando muito com uma outra empresa de consultoria, a Mantu, que infelizmente só tinha estágio de fim de estudos.
Ao fim do almoço, recebi a pergunta que eu tanto esperava do Auchan, se eu tinha interesse neles. Como claramente a minha resposta foi sim, eles pediram pra eu passar no stand deles umas 4 horas, quando o movimento é mais baixo e conversar mais com cada representante.
A parte da tarde passou bem rápido, após uma pequena aquecida com outras empresas eu fui direto para as minhas 4 principais: Danone, Leroy Merlin, L’Oréal e o Auchan. Na primeira eu acabei conversando com os 5 representantes, cada um com o foco em uma área de gestão, porém as possibilidades de estágio não eram vastas para julho, então recebi a recomendação de entrar no site deles para acompanhar a abertura de estágios. Aproximadamente a mesma coisa aconteceu com a Leroy Merlin.
Por sua vez, com a L’Oréal foi diferente, eu sabia, graças à meus amigos, que existia uma pessoa que falava português lá, então consegui desenvolver ainda melhor minha conversa e me inscrevi pro programa de estágio deles, além de ter conseguido uma revisão completa do meu CV vindo da chefe de RH da L’Oréal.
Por fim, cheguei no Auchan, uma das últimas empresas que eu fui. Cheguei no stand deles já conhecendo todos e fui direto conversar com o diretor de logística, onde tirei todas as minhas dúvidas genuínas e passei ainda mais 30 minutos conversando com ele sobre diversas experiências dele no Auchan. Após isso, passei pelas mãos das duas recrutadoras do RH, que me aconselharam sobre diversos assuntos e pediram meus dois CVs, o de logística e o de robótica.
Com o fechamento do dia, voltei para o stand do Auchan para ajudar a desmontar tudo e tentar melhorar a boa impressão que eu acreditava estar passando. Fechamos o stand e saímos para o cocktail, de onde acompanhei os membros para a saída e lá escutei a frase que fez meu coração bater mais rápido: “À bientôt”, que apenas usamos na França quando temos a intenção de ver a pessoa logo, ou seja, na minha cabeça, tenho a entrevista encaminhada.
Com mais um fórum finalizado, fiquei com a sensação de que fiz o que pude e que o resultado foi bom. Independente disso, é uma experiência única e enriquecedora, e recomendo demais para qualquer um que tenha a possibilidade de ir.